Quenianos enfrentam odisseia para votar por um país em paz

Por Jèssica Martorell

Em Nairóbi

  • Thomas Mukoya/Reuters

    Caixas com votos seladas no centro de contagem montado em uma escola de Nairobi

    Caixas com votos seladas no centro de contagem montado em uma escola de Nairobi

"Todos rezamos para que haja paz e que o perdedor, seja quem for, aceite os resultados", disse Amina, que não desistiu de votar nas eleições presidenciais, apesar de ter passado mais de sete horas em uma fila na favela de Kibera.

"São eleições importantes. Tenho que votar", enfatizou.

Exercer o direito ao voto no Quênia foi nesta terça-feira (8) uma odisseia para os 19,6 de milhões cidadãos registrados, que, desde antes do amanhecer, começaram a se amontoar diante dos colégios eleitorais desafiando o frio e o chuvisco matinal envolvidos em cobertores.

Mas as horas passavam, e as filas não avançavam devido aos problemas causados pelo novo sistema de identificação biométrica implantado pela comissão eleitoral, que retardou notavelmente a votação.

Apesar do descontentamento generalizado, todos esperaram sem perder a calma porque o mais importante era decidir o futuro do país.

"Gostaria que houvesse outros candidatos. Os dois (o presidente Uhuru Kenyatta e o opositor Raila Odinga) estão há muito tempo na política e são corruptos", criticou Amina em conversa com a Agência Efe.

Em meio às acusações prévias de fraude eleitoral realizadas pela oposição, esta eleitora afirmou que a população teme uma manipulação por ambos lados, tanto pelo partido governamental como pela oposição.

Para ela, o problema de fundo está claro. "O Quênia não se importa com a política, só com a tribo à qual pertencem. Por isso lhes custará aceitar uma derrota", disse.

Fredrik Lerneryd/AFP Photo
Oficiais de votação contam cédulas em escola primária na cidade queniana de Kisumu
As diferenças tribais, que pareciam estar superadas, foram reavivadas durante a campanha eleitoral e acionaram o alarme perante a possibilidade de que se repitam os episódios de violência pós-eleitoral de 2007, quando 1,1 mil pessoas morreram e 600 mil se viram obrigadas a deixar seus lares.

Ainda que todos confiem que o Quênia tenha aprendido com os erros do passado, o temor de que os resultados suscitem enfrentamentos entre kikuyus (tribo de Kenyatta) e lúos (tribo de Odinga) está presente na mente dos eleitores.

Tampouco ajuda o fato de que nenhum dos dois candidatos tenha querido assinar um acordo para respeitar os resultados.

"A jornada de ontem foi tranquila. Vamos ver o que acontece quando forem anunciados os resultados. Esse será o momento mais crítico destas eleições", reconheceu à Efe Adbullahi Boru, observador internacional em Kibera, onde vivem cerca de um milhão de pessoas.

Todos temem que nenhum dos candidatos aceite a derrota e que provoquem seus seguidores com discursos incendiários, como alguns realizados durante a campanha eleitoral.

Após votar em Kibera, feudo da oposição, Odinga afirmou que só tem um discurso preparado: o da vitória. O candidato foi aclamado como uma estrela de rock por centenas de pessoas enlouquecidas.

Tampouco o presidente queniano duvidou da sua reeleição após depositar seu voto em um centro de Gatundu, a cerca de 50 quilômetros de Nairóbi.

"Tanto faz pra mim quem ganhe. Só quero que haja paz", admitiu à Efe Nancy, residente de Kiamburu que votou em um colégio eleitoral do centro de Nairóbi, onde as urnas estavam espalhadas pelo chão, ao ar livre e protegidas por um par de membros da unidade paramilitar da polícia.

Nancy contou que seu tio foi uma das mais de mil vítimas do surto de violência de 2007: "Ele foi cortado como se fosse um pedaço de carne, ninguém quer que isso volte a acontecer".

Para a maioria dos quenianos, o passo seguinte após votar foi trancar-se em casa à espera de ver como evolui a situação.

"Ninguém quer enfrentamentos, queremos paz", ressaltou Washington, um jovem eleitor.

Muitos estabelecimentos permanecerão fechados nos próximos dias na capital, onde suas caóticas ruas estão praticamente vazias e seus moradores já fizeram um estoque de alimentos básicos para fazer frente ao pior palco.

Em meio ao temor generalizado, alguns, como Thomas, optam pelo bom humor. Vestido com um peculiar terno feito com folha de banana e com uma mala com os rostos de Raila Odinga e Barack Obama, ele não tem dúvida: "Odinga será um bom presidente e líder, como foi Obama".
 

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