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Encontro de Bolsonaro e Biden deve entregar pouco, mas serve aos dois

Os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden se encontrarão na Cúpula das Américas - AFP e Divulgação
Os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden se encontrarão na Cúpula das Américas Imagem: AFP e Divulgação

Lisandra Paraguassu e Anthony Boadle

08/06/2022 09h34Atualizada em 08/06/2022 09h56

Em campos opostos da política mundial, os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden não têm quase nada em comum, mas um convite feito às pressas pelo líder norte-americano para tentar salvar do esvaziamento a Cúpula das Américas colocará os dois frente a frente, em uma reunião bilateral que promete entregar muito pouco para os dois lados.

O convite a Bolsonaro, feito a duas semanas por meio de Chris Dodd, enviado especial da Casa Branca, foi uma última tentativa do governo norte-americano de salvar a cúpula —que acontece esta semana em Los Angeles— do fracasso representado pela ausência dos presidentes de vários países da América Latina.

Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, confirmou na segunda-feira que, apesar das tentativas do governo Biden de convencê-lo, de fato não iria.

Do outro lado, para Bolsonaro —que estava decidido a não comparecer— a foto com o presidente norte-americano vale muito para um presidente tentando a reeleição, ao mesmo tempo em que carrega a pecha de ter isolado o Brasil e diminuído o tamanho do país no cenário internacional.

Em meio ao crescimento da influência chinesa na região, Biden vê a cúpula deste ano como um caminho para tentar melhorar as relações com a América Latina, depois dos danos causados no governo de Donald Trump, e voltar a ocupar o espaço hoje dominado pela China.

Em uma era de conflito com a Rússia e a China, o presidente norte-americano precisa mostrar que as Américas estão unidas com uma cúpula com presenças relevantes, diz o ex-chanceler Celso Amorim, que como ministro das Relações Exteriores em dois governos —Itamar Franco e Luiz Inácio Lula da Silva— esteve presente já em três cúpulas. "Para os dois lados têm uma questão simbólica?, disse.

"Mas isso tem um preço. O preço é ele aceitar, ele pedir para um presidente brasileiro que disse que ele havia fraudado as eleições, estar presente", afirmou Amorim à Reuters. "Do lado brasileiro, Bolsonaro vai poder dizer que em seis meses ele esteve com Putin e com Biden."

Apesar de não ter acusado diretamente Biden de ter fraudado às eleições, Bolsonaro repetiu por diversas vezes o discurso inverídico de Trump de que parecia ter havido fraude em alguns Estados durante as eleições norte-americanas.

Mesmo às vésperas do encontro, Bolsonaro repetiu declaração nesse sentido. "Quem diz (sobre fraude nas eleições dos EUA) é o povo americano. Eu não vou entrar em detalhe na soberania de um outro país. Agora, o Trump estava muito bem e muita coisa chegou para a gente que a gente fica com o pé atrás. A gente não quer que aconteça isso no Brasil", afirmou Bolsonaro em entrevista ao SBT News na terça-feira.

Decepcionado com o resultado da votação nos EUA, o brasileiro foi um dos últimos chefes de Estado a cumprimentar Biden pela eleição, o que fez por carta. Sua alegação era de que estava esperando o resultado ser confirmado diante das suspeitas.

A atuação de Trump diante da derrota inspira discurso semelhante de Bolsonaro, que levanta suspeitas desde o ano passado sobre as urnas eletrônicas e o processo de apuração e, questionado se aceitaria uma derrota, recusou-se a responder. Sua retórica levanta dúvidas, no país e no exterior, de que seus seguidores possam seguir o mesmo caminho dos trumpistas, com a invasão do Congresso norte-americano, em janeiro do ano passado.

Enviados de Biden ao país, inclusive o diretor da CIA, William Burns, repassaram recados de Washington de que Bolsonaro deveria parar de atacar o sistema eleitoral, mas não surtiram efeito.

Os ataques de Bolsonaro à democracia, no entanto, não devem estar —ao menos abertamente— nos tópicos da conversa entre os dois presidentes. Secretário de Américas do Itamaraty, o embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva disse à Reuters que o esperado é que os temas incluam comércio, investimentos em energia e mineração, defesa e desenvolvimento sustentável.

Uma das declarações da cúpula que deve ser assinada pelos presidentes envolve democracia e direitos humanos e o apoio a missões de observadores eleitorais. Recentemente, Bolsonaro criou problemas pelo convite feito pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para uma missão da União Europeia, que acabou cancelando sua participação nas eleições de outubro.

O embaixador garantiu, no entanto, que esse tema não é problema para o Brasil.

"O Brasil apoia e sempre apoiou missões eleitorais. Inclusive já há convite para que uma missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) venha ao país em outubro para as nossas eleições", disse à Reuters. "Outros países têm problemas com missões eleitorais. O Brasil não está entre eles."

Amorim e outros analistas afirmam que nada substancial será discutido no encontro de 30 minutos, basicamente simbólico, dos dois presidentes, previsto para ocorrer no meio da tarde de quinta-feira, em Los Angeles.

"A relação está além do ponto de ser reparada. Washington e Brasília basicamente discordam em todos os grandes temas atuais, de mudanças climáticas e desmatamento da Amazônia até democracia e a invasão da Ucrânia pela Rússia", disse Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas.

Mesmo os auxiliares de Bolsonaro não acreditam que vale à pena tentar desenvolver uma relação com Biden a essas alturas.

"Eles acreditam que Bolsonaro vai ser reeleito, mas Biden vai perder (a maioria) no Senado e na Câmara e Trump vai voltar", explicou Stuenkel.

Apenas no Ministério da Economia ainda se acredita que o encontro pode ser um caminho para construir pontes com o segundo maior parceiro comercial do Brasil e tentar avançar temas que basicamente pararam desde a eleição de Biden. Entre eles, uma tentativa de acordo comercial entre os dois países.

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