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Eleições Americanas

Carismática, Kamala faz história como vice, mas é considerada pouco progressista pela esquerda

Kamala Harris, senadora pela Califórnia (EUA), foi anunciada pelo candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, como sua companheira de chapa contra Donald Trump - AFP
Kamala Harris, senadora pela Califórnia (EUA), foi anunciada pelo candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, como sua companheira de chapa contra Donald Trump Imagem: AFP

12/08/2020 12h03

O anúncio de Kamala Harris, 55 anos, como vice na chapa democrata de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos marca a história. A senadora é a primeira mulher negra a concorrer ao cargo no país. A trajetória de Kamala, no entanto, é alvo de críticas dos setores mais à esquerda do partido.

Filha de um professor jamaicano e de uma pesquisadora indiana, Harris é tida como uma política em sintonia com as necessidades e preocupações de mulheres e de imigrantes.

Dona de um estilo afiado e de uma personalidade forte, muitos dizem que ela é a candidata capaz de injetar energia e vitalidade à candidatura de Biden. Em 3 de novembro, a dupla Biden-Harris enfrentará Donald Trump e seu vice Mike Pence.

Os democratas esperam que ela atraia votos de eleitores negros e mulheres, essenciais para impedir a reeleição do presidente republicano.

No primeiro vídeo de campanha, publicado nas redes sociais hoje, Kamala fala que sua mãe criou duas filhas negras sabendo que seriam julgadas pela aparência, cita o movimento Black Lives Matter e a repressão de Trump aos protestos.

Progressista até a página 2?

No entanto, a trajetória da senadora eleita pela Califórnia é marcada pelo questionamento sobre suas posições em relação ao encarceramento em massa da população negra.

Kamala Harris foi procuradora do estado da Califórnia entre 2004 e 2011. A posição que serviu de trampolim para sua entrada no Senado, em 2017, é a mesma que a tornou alvo de críticas. Para a ala mais à esquerda do partido democrata, Harris tomou decisões jurídicas conservadoras como promotora mantendo a prisão de condenados por crimes sem violência, por exemplo, coadunando com uma política prisional que atinge duramente a população negra.

"Em sua carreira, a senhora Harris não barganhou nem negociou para obter o apoio dos tipos mais conservadores, ela entregou tudo [aos opositores]", escreveu Lara Bazelon, professora de direito e ex-diretora do Loyola Law School Project for the Innocent em Los Angeles em uma coluna publicada no New York Times em 2019, quando Harris disputava as primárias democratas à candidatura presidencial.

Para a pesquisadora Célia Belin, convidada do Brooking Institution, o histórico de Harris é dúbio. "Ela tem um histórico misto, especialmente na reforma da justiça criminal com progresso na luta contra a violência policial, mas também hesitação contra a pena de morte, e em processar policiais acusados de violência policial ou crimes racistas. A base progressista tem sido muito crítica a Kamala Harris."

Uma mudança de rumo

Belin considera, no entanto, que a atuação da senadora ao longo das manifestações do Black Lives Matter mostram uma mudança em relação a seu início de carreira.

"Ela tem estado na vanguarda dessa mobilização antirracista nos últimos meses. Kamala Harris pode estar esquecendo suas dúvidas anteriores, que também aconteceram por ela ser a primeira procuradora-geral negra na história dos Estados Unidos, o que pode explicar parte de sua hesitação na época", analisa.

Nos dias após a morte de George Floyd em Minneapolis, em maio, Harris participou de manifestações nas ruas de Washington.

No Capitólio, ao lado do senador também negro Cory Booker, capitaneou o esforço democrata para combater os abusos da polícia e liderou a reação contra uma medida alternativa de reforma da polícia republicana, que ela detonou como "da boca para fora".

Seus esforços foram reconhecidos. No início de agosto, Ben Crump, advogado da família de Floyd, publicou um artigo de opinião apoiando o nome de Harris. Em entrevista à Reuters, Bazelon, autora do artigo no New York Times, confirmou que houve uma mudança.

"Ela percebeu que uma de suas vulnerabilidades era seu histórico como promotora", disse Joel Payne, estrategista de campanhas políticas que trabalhou para Hillary Clinton. "Ela fez alguns reparos. Consertou algumas cercas para se preparar para o momento."

A pergunta que fica daqui até novembro é a mesma que ela diz ter ouvido incontáveis vezes da sua mãe. Em seu vídeo de campanha, Kamala conta que, quando pequena, cada vez que reclamava de algo em casa, a mãe respondia: "E o que você vai fazer em relação a isso?".

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