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'Brasil pode passar EUA em mortes por covid', alerta presidente da Abrasco

Presidente da Abrasco diz que se não houver uma mudança de estratégia e coordenação nacional, o Brasil poderá ultrapassar os Estados Unidos como país com maior número de mortos pelo coronavírus - Ricardo Moraes/Reuters
Presidente da Abrasco diz que se não houver uma mudança de estratégia e coordenação nacional, o Brasil poderá ultrapassar os Estados Unidos como país com maior número de mortos pelo coronavírus Imagem: Ricardo Moraes/Reuters

21/06/2021 14h38Atualizada em 21/06/2021 15h46

Em meio a protestos e manifestações de repúdio à gestão da crise sanitária pelo governo Bolsonaro, o Brasil ultrapassou no sábado (19) a marca simbólica dos 500 mil mortos pela Covid 19, uma situação "inadmissível", segundo Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Ela alerta que se não houver uma mudança de estratégia e coordenação nacional, o Brasil poderá ultrapassar os Estados Unidos como país com maior número de mortos pelo coronavírus.

"A sensação é de que é um fato inadmissível que o Brasil chegue a esse marco de mais de 500 mil mortes. Nós poderíamos estar evitando metade ou mais dessas vidas que foram perdidas. É inadmissível essa situação", insiste Gulnar, ao expressar o sentimento não apenas da Abrasco, mas dos sanitaristas e dos que trabalham na saúde e estão lutando há mais de um ano contra a pandemia.

O tom de revolta e indignação é amparado pela insistência e diversos apelos da comunidade científica e das entidades do setor de saúde em adotar as medidas de restrições sanitárias para conter a propagação do vírus desde a sua chegada no país.

"Não foi por falta de alertas da Abrasco e de outras entidades da área de saúde que o governo não seguiu e nem adotou as medidas adequadas. Não seguiu a experiência de outros países que puderam lidar melhor com a pandemia. O governo brasileiro não tomou as atitudes corretas e não foi por falta de aviso e de alerta", insiste a médica sanitarista e também professora da Uerj. Para ela, a responsabilidade é clara sobre a situação sanitária dramática que levou à morte de mais de meio milhão de pessoas.

"Na realidade, o que o governo brasileiro fez foi jogar a população para um aumento de risco e um aumento de exposição ao vírus, na medida que não valorizou a proteção que colocamos como medidas de proteção de saúde pública. Ao incentivar medidas farmacológicas que comprovadamente não tinham nenhum efeito e, principalmente, não dar o exemplo, por parte do chefe de Estado e de seus apoiadores. Ou seja, minimizou o tempo todo e banalizou a condição que brasileiras e brasileiros estavam enfrentando", justifica.

Gulnar se refere às mortes, mas também às sequelas de longa duração que acompanham muitos pacientes, além da situação dramática em que se encontram muitas famílias que ficaram "destroçadas" por causa da doença.

Gulnar Azevedo diz ainda que a Abrasco, juntamente com outras entidades, continuam chamando a atenção para um possível agravamento da situação e espera uma reação da sociedade após esse marco das 500 mil mortes.

"Os atos do último sábado mostraram isso com muita força. As pessoas pedindo vacina para todos e 'fora' o presidente, que não está de forma nenhuma atuando como deveria", afirma.

Brasil vai passar Estados Unidos em número de mortos

A especialista prevê ainda que se não houver uma reversão do quadro, "o Brasil vai passar a ser o país com mais número de mortes por Covid no mundo". Atualmente, os Estados Unidos, com mais de 601 mil mortes, lideram essa estatística.

Gulnar justifica que o país pode chegar a esse cenário devido a alta média de mortos, diferentemente dos Estados Unidos, que recentemente diminuíram drasticamente os óbitos, principalmente depois de adotar uma estratégia de vacinação em massa.

"Os Estados Unidos continuam em primeiro lugar, mas já não registram mais óbitos. O Brasil mantém uma média de cerca de duas mil mortes. Os Estados Unidos estão conseguindo zerar", diz Gulnar.

No dia 16 de junho, o Brasil voltou a ultrapassar a média de duas mil mortes (2.007) em 24 horas, de acordo com os dados levantados por órgãos de imprensa baseados em informações das secretarias estaduais de Saúde.

No entanto, é possível reverter essa média situada em um patamar alto com uma certa rapidez se houver uma mudança de rumo no tratamento da pandemia, garante a especialista.

"É necessário que o governo tome as rédeas e estabeleça uma coordenação nacional, integrada com estados e municípios, e a vacinação tem que ser agilizada", defende.

Gulnar explica que enquanto uma grande parcela da população não estiver vacinada, o vírus vai continuar se reproduzindo e infectando mais pessoas. "É necessário cuidar dos doentes e isolar os casos que são possivelmente ou confirmados da doença, mas isso precisa ser feito de forma articulada", defende, argumentando que também é necessário garantir proteção social para que as pessoas possam seguir as recomendações de saúde pública.

Expectativa com a CPI da Covid

Apesar da mobilização de muitos governadores e prefeitos para acelerar a vacinação, a estratégia tem limites, de acordo com a presidente da Abrasco, que defende uma articulação envolvendo o governo federal para uma efetiva imunização da população.

"Tudo o que deve ser feito para acelerar deve ser feito. Muitos prefeitos e governadores estão tentando isso. Tudo isso é válido. Mas o que vai acontecer é que em alguns lugares, vão conseguir atingir a meta e em outros, não. Neste lugares com menos vacinados, o vírus vai continuar contaminado as pessoas, atingindo a população mais vulnerável", esclarece.

A Abrasco manifesta apoio às investigações feitas pela CPI do Senado e espera que as conclusões da comissão possam ter um resultado efetivo para responsabilizar a gestão "errática" da crise sanitária.

"Entendemos que essa investigação é importante e que essa CPI pode trazer para o centro do debate, mostrando para a sociedade não só o que o governo não fez, como o que o governo fez de errado", defende.

"É necessário cobrar e investigar o quanto que a participação do governo, ao contrário do que seria necessário, contribuiu com uma quantidade de óbitos e pessoas sofrendo com essa pandemia. Observamos com muito otimismo e a CPI deve ser apoiada, mas é necessária muita pressão para que ela não mude seu rumo. Os senadores já estão percebendo que o governo enfrentou não somente de forma errática, mas deliberadamente errática", conclui.

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