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Após 20 anos no Afeganistão, EUA deixam milhares de mortos e gasto de US$ 2 tri

20.ago.2021 - Soldados dos Estados Unidos montam guarda atrás de arame farpado na parte militar do aeroporto de Cabul , no Afeganistão - Wakil Kohsar/AFP
20.ago.2021 - Soldados dos Estados Unidos montam guarda atrás de arame farpado na parte militar do aeroporto de Cabul , no Afeganistão Imagem: Wakil Kohsar/AFP

Ligia Hougland

Correspondente da RFI em Washington

31/08/2021 05h09Atualizada em 31/08/2021 09h41

Depois de quase 20 anos, US$ 2 trilhões e milhares de vidas perdidas, os Estados Unidos retiraram suas tropas do Afeganistão ontem. Joe Biden agora sofre duras críticas pelo modo como a operação foi conduzida e suas possíveis repercussões para afegãos e o resto do mundo.

Desde que o Talibã assumiu o controle do Afeganistão, em meados de agosto, 123 mil pessoas foram retiradas do país. Entre elas, 5.400 mil americanos, sendo que 1.200 afegãos foram retirados apenas nas últimas horas da presença militar no país.

Cerca de 80 mil afegãos com visto especial de imigrante e aproximadamente 200 americanos que não conseguiram embarcar em um dos últimos voos continuam no país.

O Pentágono diz que retirou o máximo de pessoas que podia dentro do prazo estipulado. A Casa Branca diz estar satisfeita com a missão. Mas Biden não apareceu em frente às câmeras para anunciar o fim da guerra.

O secretário de Estado, Antony Blinken, fez um pronunciamento à imprensa, mas logo se retirou sem responder às muitas perguntas dos jornalistas.

Ameaças em alta

A ameaça de atentados terroristas e violência agora no Afeganistão é alta. Diversos grupos terroristas, além do grupo Al Qaeda, têm marcado cada vez mais presença no país. O desafio maior e mais imediato para o Talibã será o grupo Estado Islâmico-Khorasan.

Nos últimos dias, há pessoas tentando escapar do país até a pé, sendo que os vizinhos Irã e Paquistão já receberam milhares de refugiados afegãos.

O general Kenneth Mckenzie Jr., do Comando Central, disse, nessa segunda-feira, que a missão militar chegou ao fim, mas que agora há uma sequência diplomática que negociará com o Talibã para conseguir retirar todas as pessoas que ficaram para trás. No entanto, os EUA não terão presença diplomática no Afeganistão. A missão diplomática será conduzida de Doha, no Qatar.

Apesar de o governo Biden ter prometido uma nova era nas relações internacionais americanas, privilegiando a diplomacia, a credibilidade da Casa Branca está em baixa até com seus aliados. Biden optou por informar primeiro ao Talibã sobre a retirada de tropas, em vez de seus aliados da Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte), que também lutavam no Afeganistão.

O governo americano também deixou para trás milhares de afegãos que contribuíram com as operações dos EUA no seu país.

Relação "pragmática" com Talibã

O governo Biden continua afirmando que o Talibã cooperou com a retirada das tropas e fez um bom serviço para garantir uma operação segura nas proximidades do aeroporto de Cabul. Essa avaliação é vista com maus olhos por quase todos que não fazem parte do governo Biden.

Na quinta-feira (26), 13 militares americanos e dezenas de civis afegãos foram mortos em um atentado suicida justamente por causa de uma falha no esquema de segurança no perímetro do aeroporto, que estaria sob a responsabilidade do Talibã.

Ainda assim, a Casa Branca caracteriza seu relacionamento com o Talibã como "pragmático". O general Mckenzie chegou a descrever o Talibã como "atencioso e útil" durante as operações finais americanas no Afeganistão.

O Pentágono acredita que o Talibã vai estar bastante ocupado com grupos terroristas inimigos dentro do Afeganistão e atacar os EUA não seria uma das maiores preocupações do grupo. Segundo o general McKenzie, nesse momento, já há cerca de 2.000 membros radicais do grupo Estado Islâmico-Khorazon no Afeganistão.

China aproveita brecha

Mas essa visão é limitada. O Talibã é financiado em grande parte pelo Paquistão, além do Irã e Rússia, segundo o governo americano. As implicações geopolíticas da retirada de tropas vão ser grandes, com a China querendo se estabelecer como a nova grande potência presente na região e, inclusive, já tomando iniciativas para se aproximar do Talibã.

E a China já está usando o Afeganistão como um instrumento para se impor ainda mais no cenário mundial. Wang Yi, ministro das relações exteriores da China, disse que, para o seu país cooperar com os EUA no Afeganistão, Washington precisará parar de criticar Pequim quanto a direitos humanos, além de não desafiar as reivindicações territoriais chinesas no Mar do Sul da China ou em Taiwan.

Os americanos já estavam cansados dessa longa guerra que tinha um objetivo cada vez mais opaco e distante para eles. A guerra já passou por quatro presidentes americanos, custou mais de US$ 2 trilhões e causou a morte de mais de 2.300 militares americanos, pelo menos 1.100 soldados aliados, e mais de 47 mil civis afegãos.

Partida com gosto amargo

Mesmo assim, ver o último jato C-17 partir de Cabul ontem deixou muitos americanos com uma sensação mais de preocupação do que de alívio. Afinal, os EUA estavam entregando o Afeganistão para o mesmo grupo que haviam ido enfrentar naquele país há quase 20 anos.

Além de essa ser uma maneira amarga de marcar o aniversário de 20 anos do atentado de 11 de Setembro, ninguém —nem mesmo a Casa Branca— está otimista quanto ao futuro no Afeganistão.

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