Conteúdo publicado há 2 meses

Quase 2.500 lobistas do setor do petróleo participam da COP28: 'um recorde', afirmam ONGs

Os negociantes de petróleo são quatro vezes mais numerosos em Dubai que nas conferências climáticas anteriores. É o que revela a pesquisa realizada pela Global Witness e outras ONGs da coligação Kick Big Polluters Out, especializada na coleta de dados desde a COP26, em 2021, em Glasgow.

Com 2.456 pessoas credenciadas, estes assessores, executivos, consultores, vendedores e outros especialistas técnicos ou financeiros já eram 25% mais numerosos na COP27, em 2022, em Sharm el-Sheikh, que em Glasgow.

Desta vez, seu número supera o de todas as delegações dos dez países mais vulneráveis ??às mudanças climáticas, que somam apenas 1.609 pessoas.

O grupo dos representantes das petrolíferas só é superado pelas delegações dos Emirados Árabes Unidos, organizadores da COP, com 4.409 participantes, e do Brasil, organizador da COP30, com 3.081 pessoas.

Exxon, ENI, BP e TotalEnergies

Quase todos os lobistas vêm de países ocidentais. Eles conseguiram obter suas credenciais de acesso como membros das delegações nacionais ou em nome de associações comerciais. Discretos, os lobistas raramente usam o nome da empresa para a qual trabalham.

Na COP27, era necessário ir ao pavilhão da International Emissions Trading Association (IETA), principal associação de empresas do setor, para encontrar Patrick Pouyanné, diretor da francesa TotalEnergies, uma das cinco maiores empresas de petróleo do mundo. Este ano a companhia é, mais uma vez, que tem mais representantes do evento, com 116 credenciais.

A França chegou aos Emirados com representantes da TotalEnergies e da empresa de eletricidade EDF. Patrick Pouyanné não faz parte da delegação. No ano passado, ele foi inscrito na lista da Mauritânia.

Já a delegação italiana integra uma equipe da ENI, e a União Europeia levou para Dubai funcionários da BP, ENI e Exxon Mobil.

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Envenenamento do processo

"Viemos aqui para lutar pela nossa sobrevivência. Que chances temos, se nossas vozes forem sufocadas pela influência dos grandes poluidores? Este envenenamento do processo [das negociações climáticas da ONU] tem que parar. Não permitiremos que o petróleo e o gás pesem tanto no futuro do Pacífico", declarou Joseph Sikulu, diretor da região do Pacífico da ONG internacional 350.org.

Em maio de 2023, em uma carta dirigida ao presidente americano, Joe Biden, à presidente da Comissão Europeia, Ursula Van der Leyen, ao secretário-geral da ONU, António Guterres e ao presidente da ONU Clima, Simon Stiell, 130 parlamentares americanos e europeus mostraram sua indignação com uma presença tão massiva.

"Quando o número de participantes que representam os interesses de uma indústria poluente, que têm interesses financeiros na continuação da situação atual, é maior do que o as delegações de quase todos os outros países, é claro que podem abrandar a ação climática", afirmaram no texto.

Na carta, eles também solicitaram a demissão do presidente da COP28, o sultão Al-Jaber, da direção da petrolífera Adnoc, para evitar qualquer conflito de interesses.

Poucos dias antes da abertura da COP28, uma investigação jornalística afirmou que Al-Jaber tinha usado sua posição como organizador da conferência para garantir contratos de petróleo e gás.

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COP dos fósseis

A COP28 é alvo de críticas por ser realizada em um país produtor do petróleo, que tem planos de continuar com novos projetos de extração, contrariando as recomendações dos cientistas da Agência Internacional de Energia.

Outras vozes, no entanto, principalmente entre ONGs, aproveitaram a oportunidade para colocar o assunto no centro dos debates, o que acabou tornando esta a COP dos combustíveis fósseis.

Por outro lado, há quem defenda que seria difícil discutir a transição energética e o fim do petróleo sem os principais atores da questão.

A Kick Big Polluters Out faz campanha para que as pessoas relacionadas direta ou indiretamente aos interesses petrolíferos não sejam aceitas nas COPs.

As emissões de gases do efeito estufa, 90% devidas ao consumo de combustíveis fósseis, alcançam recordes, chegando a 57,4 bilhões de toneladas de CO2 em 2022, um aumento de 1,2% (0,6 GtCO2) em relação ao ano anterior, aponta um relatório da ONU publicado em 29 de novembro.

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O Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) é claro: devemos limitar os combustíveis fósseis em 43% até 2030 para diminuir o aquecimento global e seus impactos catastróficos sobre a humanidade.

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