Por que os filipinos estão votando em um novo "ditador"?

Miguel Syjuco*

Em Manila (Filipinas)

  • Erik De Castro/Reuters

Um clima de carnaval tomou conta deste país antes da eleição presidencial de segunda-feira: dançarinas em eventos de campanha, candidatos cumprimentando uns aos outros e relatos de pessoas sendo pagas para dar vivas. O sistema filipino de governo, herdado de nossos colonizadores americanos, é único, com sua ruidosa coleção de partidos políticos baseada não em ideologia, mas na personalidade.

Cinco candidatos estão concorrendo a presidente e seis a vice-presidente, que é eleito separadamente. Mas escolha real é escassa. A maioria dos políticos é proveniente das poucas dezenas de dinastias familiares que governaram o país nas últimas duas gerações. A economia está passando por um boom, mas a corrupção e o clientelismo, a desigualdade e a pobreza permanecem problemas crônicos.

Muitos filipinos estão cheios. Esse é o motivo para estarem se voltando a candidatos que prometem mão de ferro ou um retorno aos tempos gloriosos de um passado ditatorial.

O líder na corrida presidencial é Rodrigo Duterte, o prefeito de fala dura de Davao, a terceira maior cidade das Filipinas. Ele ameaça dissolver o Congresso e impor um "governo revolucionário" caso suas reformas enfrentem resistência. "Sou um ditador? Sim, é verdade", ele disse. Ele também promete que se for eleito acabará com a criminalidade em seis meses. "Se fracassar, matem-me", ele disse.

Enquanto isso, muitos eleitores são enganados por histórias nostálgicas da ditadura de Ferdinand E. Marcos, que governou de 1965 a 1986. Seu filho, Ferdinand Marcos Jr., conhecido como Bongbong e um senador, está liderando a disputa a vice-presidente e está tirando proveito da memória curta em um país onde a idade média é de 23 anos. "Sou beneficiário do bom trabalho que foi feito na época do meu pai", disse Marcos, que elogia seu pai, o homem forte derrubado, com tendo sido o melhor presidente do país.

Os anos que se seguiram após a restauração da democracia nas Filipinas em 1986 foram de otimismo festivo. Minha família, como muitas outras, voltou do exílio no exterior, empolgada pelo novo governo eleito e pela nova Constituição. Mas de lá para cá, a esperança desapareceu graças a uma sucessão de presidentes desacreditados e, mais importante, a incompetência de uma oligarquia ressurgente.

Dentro os cinco candidatos presidenciais deste ano, três são apoiados pela rica família Cojuangco, que tem influenciado a política nas últimas quatro décadas. Um candidato é neto de um presidente, outro um ex-prefeito que estabeleceu uma dinastia que é acusada de ser altamente corrupta, enquanto o terceiro é um senador neófito aliado a um presidente que foi derrubado por desvio de dinheiro.

Alguns economistas estimam que 40 das famílias mais ricas das Filipinas controlam 76% do produto interno bruto. A senadora Miriam Santiago, que promoveu um fracassado projeto de lei antidinastia, disse que 178 dinastias controlam a política do país, com 73 das 80 províncias do país governadas por clãs. O Centro para o Empoderamento do Povo na Governança, um centro de estudos, apontou que cerca de 80% das 229 cadeiras no Congresso são controladas por políticos ligados a dinastias.

Não é de se estranhar que muitos filipinos agora estejam questionando o valor da democracia.

Duterte está 11 pontos percentuais à frente de seu rival mais próximo nas pesquisas de opinião e conta com o apoio de um entre três filipinos. Ele se apresenta como um homem simples que está farto com o sistema, prometendo corrigir a nação a todo custo. Ele está ligado a mais de 1.000 execuções extrajudiciais de pequenos criminosos durante sua época como prefeito. Ele não apenas reconhece ter apoiado as execuções, como promete que como presidente "transformará 1.000 em 100 mil" e despejará os corpos na Baía de Manila para "engordar todos os peixes de lá".

O símbolo da campanha de Duterte é um punho, destinado aos infratores da lei, mas aparentemente também destinado à oligarquia. "Ele é o único homem que oferece mudança radical", disse uma das muitas petições feitas no ano passado pedindo para que ele concorresse a presidente. A mensagem tem apelo junto aos pobres frustrados, que se sentem abandonados pelo governo, mas ele possui fás em todas as classes. Eleições simuladas em universidades o apontam constantemente como vencedor, enquanto uma câmara de comércio de ricos líderes empresariais filipino-chineses o saúdam como "o homem que faz com que as coisas sejam feitas".

Essa imagem de líder impetuoso e que não perde tempo explica por que nada do que ele diz o prejudica. Ele descreveu repetidamente um rival usando um insulto homofóbico. Ele chamou o papa Francisco de "filho da p...". Ele mandou os grupos de direitos humanos irem "para o inferno". Ele brincou que deveria ser o primeiro no estupro coletivo de uma missionária australiana. "É assim que homem fala", explicou Duterte. "Não sou filho de uma classe privilegiada." Seus apoiadores, que com frequência ameaçam seus críticos nas redes sociais com ameaças de morte e estupro, o defendem com uma pergunta retórica ofensiva, mas que diz muito: como as pessoas podem ficar tão incomodadas com uma piada de estupro, quando políticos estão estuprando o país há tanto tempo?

Duterte energizou os Filipinos de uma forma histórica. Um de seus slogans é "a mudança está chegando". É exatamente a mensagem certa vinda do mensageiro completamente errado. As campanhas dele e de Marcos são alimentadas pela frustração, mas outros candidatos ofereceram razão e esperança: Leni Robredo, uma candidata a vice-presidente que recentemente ultrapassou Marcos, o conseguiu por meio de sua defesa da igualdade de gênero. Walden Bello, um ex-estudante radical que agora é um acadêmico respeitado, é saudado local e internacionalmente por sua integridade e ativismo democrático no Legislativo.

Os filipinos deveriam olhar para esses políticos como inspiração. Mas também deveriam olhar para si mesmos. Como escreveu Jose Rizal, nosso herói da independência nacional: "Não há tiranos onde não há escravos".

Por toda a minha vida eu testemunhei uma tendência entre os filipinos de eleger pessoas que posam como salvadores. Ansiamos por disciplinadores, mas enquanto isso brigamos entre nós mesmos, dispostos a pagar suborno e desrespeitar as leis. Escolhemos candidatos com base em laços regionais ou personalidade de entretenimento. Todos nós reconhecemos que nosso governo, dominado por um oligarca, está seriamente quebrado, mas precisamos escolher líderes que nos eduquem e nos empoderem para consertá-lo nós mesmos. Mais democracia real é necessária, não menos.

Do lado de fora do quartel-general da Polícia Nacional Filipina, uma placa diz: "Esta é sua polícia. Nós servimos e protegemos". Mas continuando, pichado em tinta vermelha, está escrito: "...a classe governante". Quem quer que tenha pichado aquilo expressou o que muitos sentem. Só as próprias pessoas podem mudar isso.

*Miguel Syjuco é autor do romance "Ilustrado"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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