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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pfizer ajuda CPI a fechar cerco contra Bolsonaro, que desprezou vacina

Colunista do UOL

13/05/2021 12h19

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O depoimento de Carlos Murillo, ex-presidente da Pfizer no Brasil, ajudou a CPI da Pandemia a fechar o cerco contra o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Ao relatar ofertas de imunizantes que não tiveram respostas oficiais, Murillo confirmou o desprezo de Bolsonaro e Pazuello pela compra de vacinas em agosto de 2020. O ex-presidente da Pfizer depôs nesta quinta à CPI.

Se Bolsonaro e Pazuello tivessem priorizado a vacinação e aceitado a oferta da Pfizer de 26 de agosto de 2020, o Brasil poderia ter recebido 1,5 milhão de doses até dezembro do ano passado, o que teria evitado mais mortes e infecções no país. Já morreram quase 430 mil brasileiros por covid-19.

Em tese, com duas doses por pessoa, 750 mil brasileiros poderiam ter sido imunizados no fim do ano passado. A última proposta da Pfizer ao Ministério da Saúde previa a entrega de 3 milhões de doses no primeiro trimestre de 2021 e mais 14 milhões no segundo trimestre deste ano.

Segundo Murillo, levando em conta as tratativas em curso, seria possível obter doses para vacinar metade da população brasileira ainda neste ano só com o imunizante da Pfizer.

Obviamente, se o governo Bolsonaro tivesse levado a sério a negociação com os diversos laboratórios que produzem vacinas e fechado contratos, a situação seria outra no país, que vacina a conta-gotas. As doses da Pfizer se somariam às produzidas pelo Instituto Butantan (Coronavac) e Fiocruz (Astrazeneca).

O depoimento do ex-presidente da Pfizer no Brasil confirmou parte da versão do ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, que falou à CPI nesta quarta-feira. Depois de não obter respostas a três ofertas, a Pfizer enviou em setembro uma carta a Bolsonaro com cópia para outras cinco autoridades: Pazuello, então ministro da Saúde, o vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro-chefe da Casa Civil, Braga Netto, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o embaixador do Brasil em Washington, Nestor Foster.

No entanto, o negacionismo de Bolsonaro, que lançava publicamente suspeitas contra as vacinas, criou uma espécie de muralha contra a possibilidade de negociação com a Pfizer e desinformou a população.

De acordo com o ex-presidente da Pfizer no Brasil e atual comandante da empresa na América Latina, foram oferecidas ao governo brasileiro "as mesmas condições" contratuais fechadas em acordos da farmacêutica com mais de 110 países. Murillo disse que essas cláusulas não eram "leoninas", como declarou Pazuello em depoimento ao Congresso a fim de justificar a sua omissão.

As dificuldades de negociar a venda de vacinas ao governo brasileiro são provas da aposta de Bolsonaro e de seus auxiliares na chamada imunidade de rebanho. Ou seja, deixar o vírus se espalhar pelo país para que os sobreviventes adquirissem imunidade natural, sem vacina.

Além de não ser recomendada pela ciência, essa estratégia cobra um preço muito alto, pois mais gente morre ou fica com sequelas por contrair uma doença grave contra a qual o governo, de forma deliberada, não quis lutar. Pelo contrário, além de desprezar as vacinas e máscaras, Bolsonaro sabotou esforços de governadores e prefeitos para adotar medidas de mitigação, como quarentenas para aumentar o isolamento social.

A CPI da Pandemia já descobriu uma tentativa do governo de alterar a bula da cloroquina, o que é ilegal. Também obteve prova do desprezo à possibilidade de comprar vacina já em agosto de 2020, atitude negligentemente homicida e negacionista.

Os depoimentos do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e do diretor-geral da Anvisa, Antonio Barra Torres, forneceram provas da tentativa do governo de mudar a bula da cloroquina. Mandetta e Barra Torres também discordaram do negacionismo do presidente.

A recomendação de cloroquina e hidroxicloroquina feita por Bolsonaro, endossada por Pazuello e permitida por Queiroga, é um agravante penal e político da resposta negligentemente homicida do governo à pandemia. O medicamento não funciona contra covid-19 e pode matar quem tem arritmia cardíaca. Bolsonaro é literalmente prejudicial à saúde.

Com os depoimentos tomados até hoje, a CPI da Pandemia já obteve provas de crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro e Pazuello. Ambos deveriam ser responsabilizados penal e politicamente pelas instituições competentes. Mais gente morreu e adoeceu no Brasil sem necessidade devido às ações e omissões do presidente e do ex-ministro da Saúde na pandemia.

Segurança jurídica

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) perguntou ao ex-presidente da Pfizer quando a empresa sentiu segurança jurídica para fechar o contrato de venda de vacinas ao Brasil. Murillo respondeu que isso ocorreu em 10 de março deste ano, com a promulgação da Lei 14.124, que trata de "aquisição de vacinas".

Governista, Rogério achou que descobrira a pólvora e que tinha prova de que Bolsonaro não desprezara a vacina, mas o senador acabou complicando a vida do presidente. Ele tentou vender a versão de que Bolsonaro e Pazuello não agiram porque faltava segurança jurídica, o que seria atribuição do Congresso.

É mentira. Adotando a premissa do senador, se Bolsonaro tivesse levado a sério a compra de vacinas, o presidente poderia ter editado uma medida provisória ou articulado a aprovação rápida de um projeto no Congresso para dar a chamada "segurança jurídica". Ou seja, aguardar uma ação do Legislativo só confirma a omissão do governo a respeito das vacinas. É mais uma prova da negligência homicida de Bolsonaro na resposta à pandemia.

O despreparo dos senadores governistas está em sintonia com o de Bolsonaro e Pazuello.

Ideólogo

Seria cômica, não fosse trágica, a informação de Carlos Murillo da participação do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, em negociação paralela do governo com a Pfizer justifica um convite para depor na CPI. Carlos Bolsonaro é um dos mais ativos conselheiros do presidente. A resposta do governo à pandemia tem tudo a ver com o vereador.