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Pressão de Bolsonaro contra isolamento 'não fez diferença', diz Barroso

O ministro Luis Roberto Barroso durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal  - 14.fev.2019 - FÁTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O ministro Luis Roberto Barroso durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal Imagem: 14.fev.2019 - FÁTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Felipe Amorim

Do UOL, em Brasília

11/05/2020 12h18

Resumo da notícia

  • Presidente foi ao STF com comitiva de ministros e empresários para reclamar dos impactos do isolamento
  • Atitude inesperada foi interpretada como uma forma de pressionar a Corte
  • Para ministro do STF, não cabe a ele avaliar movimento político do presidente
  • "Nós não somos adversários nem aliados do presidente, nós interpretamos e aplicamos a Constituição", disse

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso afirmou hoje que "não fez nenhuma diferença" sobre o tribunal o gesto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que, na última quinta-feira (7), levou uma comitiva de ministros e empresários ao Supremo para reclamar dos impactos econômicos das medidas de isolamento social para combater o avanço do novo coronavírus.

O ato de Bolsonaro, que realizou a visita de forma inesperada, foi interpretado como uma forma de pressionar o STF por medidas que flexibilizem o isolamento.

"Do ponto de vista do presidente [da República], acho que foi um movimento político que não me cabe avaliar. O que posso te dizer é que pressão é uma coisa nessa vida que só produz algum efeito se você aceitá-la, venha de onde vier. Se você não aceitar, ela não produz nenhum efeito", disse Barroso, em entrevista na manhã de hoje à rádio Jovem Pan.

"Portanto, eu preciso lhe dizer que para mim, pessoalmente — e estou certo de que para meus colegas —, não fez nenhuma diferença", disse o ministro.

"Nós não somos adversários do presidente, nós não somos aliados do presidente, nós interpretamos e aplicamos a Constituição. Nossa logica é certo ou errado, justo ou injusto, legítimo ou ilegitimo. Alguém pode divergir, tem todo o direito, mas nós não nos movemos por escolhas políticas", concluiu Barroso.

A comitiva levada por Bolsonaro ao STF foi integrada pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Walter Braga Netto (Casa Civil) e por empresários da indústria.

Eles foram recebidos pelo presidente do STF, Dias Toffoli. A reunião foi transmitida ao vivo nas redes sociais pela equipe de Bolsonaro.

A ida do presidente ao STF incomodou os ministros da Corte, que também criticaram, reservadamente, a postura de Toffoli no episódio.

Hoje, o ministro Luís Roberto Barroso disse que a conduta de Toffoli foi a "adequada" por se tratar de um encontro pedido pelo presidente da República.

"Eu acho que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, agiu com a elegância que o cargo impunha. Se o presidente da República vem até sua casa, você não fecha a porta e muito menos bate a porta na cara dele. Do ponto de vista do Supremo, o comportamento foi o adequado e o desejável", disse Barroso.

O STF tem imposto uma série de derrotas ao Planalto em meio à pandemia do coronavírus.

Em decisão que limitou a ação do governo Bolsonaro contra o isolamento social, o STF reafirmou que os governadores e prefeitos têm autonomia para determinar medidas restritivas durante a pandemia.

Fora do campo da saúde pública, o Supremo impediu a nomeação do escolhido por Bolsonaro para o comando da Polícia Federal e autorizou a abertura de inquérito contra o presidente com base nas acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro ao deixar o governo.