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Blocos de rua


Bloco fundado por Marielle Franco faz homenagem à vereadora, no Rio

Divulgação
Bloco "Se Benze Que Dá" fundado por Marielle Franco Imagem: Divulgação

Thiago Camara

Colaboração para o UOL, no Rio

12/02/2019 04h00

O Complexo da Maré, na zona norte do Rio, vai reviver a alegria de uma ilustre cria da comunidade: Marielle Franco. Fundado pela vereadora, executada em 14 de março de 2018, o bloco "Se benze que dá" vai homenagear a trajetória da parlamentar que deixou um legado de luta e sementes para a visibilidade do empoderamento negro e feminino.

Faz 15 anos que Marielle e a amiga do pré-vestibular comunitário, Renata Souza, pensaram num jeito mais prático de curtir a folia, sem precisar se deslocar para os blocos famosos no Centro e Zona Sul da cidade. Surgiu o "Se Benze que dá". O símbolo é uma folha de arruda e a "bênção" faz referência à difícil realidade dos moradores das 16 favelas do complexo, dominadas pela violência urbana. 

"A Maré tem muitos grupos armados, facções e não queríamos que o bloco ficasse restrito a uma favela só do complexo e por isso o nome do bloco "Se Benze que dá", pois o desfile vai passando por essas barreiras impostas pela violência", conta Renata, que anos depois tornou-se chefe de gabinete de Marielle Franco e, hoje, é deputada estadual pelo PSOL.

Luyara Franco, filha de Marielle, estará presente nos desfiles em que sua mãe costumava tocar tamborim. Autêntica e de voz firme, a estudante falou, com exclusividade para UOL, da importância de sua mãe ser lembrada.

"Essa homenagem tem um simbolismo por ela ter sido uma das fundadoras, ser mareense. É um modo também de reafirmar nossa luta pela solução do caso da morte da minha mãe, que dia 14 de fevereiro completa 11 meses", explica.

Carnaval politizado
 

Renata, que é a porta-estandarte do bloco, lembra que segurança pública, combate à dengue e aumento das passagens de ônibus foram alguns temas que transformaram a folia em crítica social, ao longo dos anos. 

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Renata Souza e Marielle Franco Imagem: Divulgação

"Todas as nossas letras questionam a prefeitura, o governo, os modelos de segurança pública. É um bloco que traz a bandeira da diversão sem alienação, como se fosse uma grande manifestação", explica Renata. 

A letra do samba desse ano confirma. O título faz um apelo à não violência: "O amor impera" e versos fortes revelam uma Maré cansada das ausências de quem não pode mais se jogar na folia: "Chega de perdas no caminho; A vida é o nosso ideal; Olha aqui nossa magia; É resistência! Meu carnaval!"

Ao longo do ano, o bloco convoca moradores para manifestações na cidade do Rio de Janeiro e também oferece oficinas de percussão. Luyara, que toca surdo e, por incentivo da mãe, também já esteve à frente de outro bloco, o ApaFunk, Associação dos profissionais e amigos do Funk, defende a presença das mulheres ocupando o Carnaval.

"Ter um bloco dentro da favela puxado por mulheres cala a boca de muita gente. A mulher pode ocupar os cargos que ela quiser", defende a jovem com a mesma convicção que fez de sua mãe uma parlamentar de destaque. 

2019 o Carnaval de Marielle

Os desfiles serão realizados nos sábados 23 de fevereiro e 9 de março. Pelas vielas, becos e ruas da Maré o samba dará novo sentido à luta de quem vive uma rotina de violência imposta pelas facções e pelo Estado. 

A homenagem do bloco fundado por Marielle extrapolou os acessos do Complexo da Maré e ganhou a cidade inteira com o samba da Estação Primeira de Mangueira, que também traz o nome da vereadora na letra.

Na alegria e empoderamento de Luyara, Marielle se torna presente. Hoje e sempre. E também no mandato de Renata, na letra do samba do "Se Benze" e, mais ainda, nas inúmeras sementes que ganharam visibilidade, desde sua trágica morte.