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Blocos de rua


Maior bloco de SP, Baixo Augusta comemora 10 anos neste domingo

Mateus Araújo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/02/2019 04h00

O que começou como uma festa de amigos -alguns deles empresários da noite da classe média de São Paulo- transformou-se no maior bloco de rua do Carnaval da cidade. Assim é o Acadêmicos do Baixo Augusta, que completa 10 anos em 2019 e desfila no próximo domingo (24), na rua da Consolação. 

Chamado de "bloco ativista" pelos seus integrantes, o Baixo Augusta é conhecido por sua verve política e crítica e também por reunir em seu desfile um time de artistas e celebridades, como a atriz Alessandra Negrini, que é a rainha. "O bloco nasce do desejo de ocupar a cidade, chamá-la de nossa, resgatar o Carnaval que é o lugar de contestação, irreverência, posicionamento civil do cidadão", explica Leo Madeira, um dos fundadores.

Neste ano, com o tema "Que País É Esse?", a agremiação pretende levar ao desfile cerca de 1 milhão de pessoas -marca alcançada no ano passado, segundo os organizadores. Entre os destaques do desfile está a presença dos músicos Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e André Frateschi, integrantes da banda Legião Urbana, além de performances de grupos teatrais, incluindo apresentação de bailarinos em guindastes.

O tema de 2019, conta Madeira, é provocação ao autoritarismo e ao conservadorismo. "A gente vive o apogeu de um Brasil que não é onde a gente se reconhece. Um Brasil estimulado por discursos de ódio, sentimento de desrespeito às diferenças, afeito à violência contra o outro", afirma. "Então, a gente pergunta isso usando como licença poética a música do Renato Russo e da Legião para perceber que lugar e momento a gente está vivendo e para pensar de que maneira a gente pode combater a postura de ódio e desrespeito com o Carnaval." 

Para ele, a festa de 10 anos do bloco é também a celebração de uma história de parcerias. "A primeira coisa que penso são as pessoas, o que a gente chama de comunidade. O bloco não seria o que é sem a adesão de quem frequenta nossos desfiles. A segunda [parceria] que eu penso é com o espaço público, a cidade de São Paulo é nossa grande parceira. Ela abraçou o Baixo Augusta de uma maneira surpreendente. E, em terceiro lugar, penso em todos os blocos que são nossos amigos, que fomos encontrando ao longo dessa trajetória e foram se juntando a nós para construir o que era preciso para estar em um Carnaval consolidado", diz. 

Publicação

Um livro sobre a história do Acadêmicos do Baixo Augusta é lançado hoje pelo produtor cultural Alê Youssef, também fundador do bloco. "Baixo Augusta - A Cidade É Nossa" compila memórias de Youssef não só do bloco em si, mas de todo o movimento político, econômico e cultural em torno da região boêmia do centro de São Paulo. 

No texto, o autor relembra, por exemplo, as dificuldades enfrentadas pela agremiação para conseguir apoio e até mesmo liberação da prefeitura para realizar os desfiles. Problemas que surgiram desde o primeiro ano, em 2010, quando os foliões foram autorizados apenas a acompanhar a bloco pela calçada da rua Augusta. "Começava um verdadeiro calvário de embates com o poder público", escreve ele. 

Ao longo do livro, Alê Youssef mostra como o desejo de compartilhar uma cidade mais democrática fortaleceu o Baixo Augusta e outros blocos e os levou a enfrentarem regras rígidas, como as do ex-prefeito e atual governador do estado, João Doria (PSDB).

"Talvez por cálculo político, direcionou suas ações a esse ambiente oposto dos valores libertários", conta, no livro, o autor, atual secretário de Cultura da cidade, na gestão de Bruno Covas (PSDB), ex-vice-prefeito e substituto de Doria. 

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