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Fanfarra é reprimida pela polícia durante desfile em São Paulo

Fanfarra foi reprimida com violência pela polícia - Reprodução/Facebook/Mídia Ninja
Fanfarra foi reprimida com violência pela polícia Imagem: Reprodução/Facebook/Mídia Ninja

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

28/02/2019 08h10

O final de semana de pré-Carnaval de São Paulo ficou marcado não apenas pelos megablocos e pelo clima de folia que já se instaurou na cidade, mas também pela repressão da Polícia Militar aos foliões.

No sábado (23) à noite, o Carnaval em Pinheiros terminou com duas levas de bombas de gás lacrimogêneo disparadas em direção à multidão no Largo da Batata. Por volta do mesmo horário, o bloco Fanfarra Clandestina foi duramente reprimido por soldados por corporação, e da GCM (Guarda Civil Metropolitana), quando terminava de desfilar no centro da cidade.

De acordo com uma integrante do grupo que não quis se identificar, o bloco se apresentava no "Buraco do Minhoca" (como é conhecida a alça de acesso ao elevado João Goulart, o "Minhocão", que passa por baixo da Praça Roosevelt) quando sofreu uma "emboscada" por parte da PM e da GCM, que os cercou. A Mídia Ninja publicou no Facebook um vídeo que mostra a ação.

"Estávamos na última música. Na verdade, já teríamos finalizado, mas queríamos levar o bloco e os participantes para fora do Buraco da Minhoca e então encerrar a parte musical. Estávamos tocando desde as 20h30", conta a integrante da fanfarra.

"Tentamos sair, mas a polícia segurou alguns dos nossos instrumentos e dispersou as pessoas com balas de borracha, cassetetes e spray de pimenta. Não conversaram em nenhum momento, não nos deram nenhuma alegação do porquê estavam retirando os instrumentos", conta. "Quando fui perguntar qual era o nosso crime, me algemaram e me levaram pra delegacia, onde o delegado nem sequer me recebeu, pois disse que não havia nenhum crime. Devolveram nossos instrumentos todos quebrados e nos liberaram."

A integrante calcula que cerca de 30 policiais e 10 viaturas participaram da ação. "O Buraco da Minhoca fica fechado para circulação de carros das 14 horas do sábado até a manhã da segunda-feira, o mesmo período pelo qual o Minhocão fica fechado. Portanto, não havia obstrução do trânsito. Pelo contrário, a ação da PM que obstruiu a passagem da 23 de Maio que passa por baixo da Praça Roosevelt, causando um trânsito enorme."

O relato contraria, então, a versão oficial da PM, divulgada por alguns veículos de imprensa, de que o grupo estaria obstruindo o trânsito no local e que teria havido negociação antes da ação truculenta. Questionada pelo UOL, a corporação não respondeu.

A Fanfarra Clandestina existe há três anos e tem cerca de vinte integrantes. "Nosso intuito é ter uma atitude libertária e libertadora a partir da música e da ocupação do espaço público.

Se vamos sair no próximo Carnaval, ainda não conversamos sobre isso, mas não acredito que esse tipo de repressão seja suficiente para tirar o povo da rua e acabar com o Carnaval. Na verdade, só dá mais vontade de estar na rua lutando pelos nossos direitos", diz a integrante ao UOL.

Ela avalia o prejuízo com os instrumentos quebrados pela polícia em cerca de R$ 1000, e critica o atual modelo do Carnaval paulistano. "O Carnaval virou negócio. E a cidade é sequestrada nesse período, com pontos de ônibus desativados, linhas de ônibus alteradas, pessoas a pé, perdidas. Nos blocos, os ambulantes que não vendem a cerveja do patrocinador são reprimidos e têm sua mercadoria apreendida. Conhecemos essas histórias de outros Carnavais. A prefeitura pode tudo em nome do comércio, o povo não pode nada, e quem insiste em estar nas ruas é reprimido sem nenhuma base legal. No mesmo dia outros blocos foram reprimidos, blocos pequenos, com menos de 500 pessoas. Enquanto isso megablocos patrocinados desfilavam nas ruas fechadas do centro."

Sobre o ocorrido no Largo da Batata, a assessoria de imprensa da Polícia Militar enviou nota ao UOL afirmando que "por volta das 20h00 começou a chover e os foliões tentaram adentrar a estação de metrô Faria Lima, a qual estava fechada. Os foliões começaram a depredar a estação. Os policiais militares que faziam o policiamento intervieram, e utilizaram do escalonamento da força para a dispersão daquele tumulto, chegando à situação de necessidade do uso de munição de menor potencial ofensivo para obter êxito em tal missão."

Como mostrou uma reportagem do UOL, porém, em um segundo momento bombas foram lançadas também contra foliões que estavam no Largo da Matriz, do lado oposto à entrada do metrô, ou seja, à princípio sem ligação com o incidente mencionado.

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