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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro desejou 30 mil mortos pela ditadura, covid multiplicou por 10

Jair Bolsonaro não quer ser chamado de genocida, mas se comporta como tal - Isac Nóbrega/Presidência da República
Jair Bolsonaro não quer ser chamado de genocida, mas se comporta como tal Imagem: Isac Nóbrega/Presidência da República
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

28/03/2021 04h00

Há um Brasil que chora diariamente as mortes causadas pela pandemia. Que se entristece com cada vida perdida, mesmo as mais distantes ou desconhecidas. Que lamenta a interrupção de sonhos pessoais, projetos familiares ou comunitários e laços afetivos.

E há o Brasil de Jair Bolsonaro. Dos que desprezam a vida e preferem acreditar que seja mimimi, histeria, fraqueza de "um país de maricas", que não consegue enfrentar o óbvio: "Todo mundo vai morrer". Essa é a polarização que realmente interessa ser eliminada.

Trabalhadores pela vida

No primeiro grupo há solidariedade, cuidados individuais e mobilizações sociais. Há muita fé e esperança, além de envolvimento na tentativa de interromper a escalada do número de óbitos.

A dedicação dos profissionais de saúde em longos plantões e o desespero diante da escassez de estrutura para o atendimento aos pacientes é uma imagem representativa daqueles que não aceitam de braços cruzados a letalidade da covid-19.

Há outros profissionais que contribuem no enfrentamento à doença: cientistas e pesquisadores de institutos e universidades públicas; profissionais da imprensa; trabalhadores da limpeza e da segurança públicas; professores inventores de novas práticas de ensino; produtores e entregadores de alimentos; motoristas de cargas e de pessoas, inclusive de ambulâncias que correm contra o tempo impiedoso da morte; operários de indústrias essenciais, como a farmacêutica e de produtos de limpeza, e artistas, que compartilham sensibilidades em meio ao caos.

Estes são alguns dos que fazem dos seus ofícios uma batalha contra a morte.

idosa em hospital para covid - BRUNO KELLY/REUTERS - BRUNO KELLY/REUTERS
Pandemia gera necessidade de se discutir a reabilitação dos recuperados
Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS

Além da agressividade da covid, o grupo a favor da vida precisa enfrentar as ações perversas daqueles que, representados e estimulados pelo presidente Bolsonaro, promovem os riscos da contaminação, condenam a ciência e as medidas de isolamento, provocam aglomerações, divulgam tratamento precoce, espalham mentiras sobre a vacina, fazem pouco caso do sofrimento de amigos e familiares das vítimas e buscam proveitos políticos (e até financeiros) com a morte.

O trabalho que o regime militar não fez

Em 1999, o então deputado federal Bolsonaro, em entrevista ao programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes, discorria sobre problemas do país, quando concluiu que "o voto não vai mudar nada no Brasil".

"Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil."

Este foi o cálculo mórbido de um indivíduo que, em sua trajetória política, nunca escondeu seus interesses macabros. O que explica os temas que mais rondam seu nome e de seus familiares: armas, milícias, torturadores e, agora, genocídio.

Neste momento em que a pandemia se encarregou de multiplicar por dez o desejo fúnebre de Bolsonaro, ceifando a vida de mais de 300 mil brasileiros, é preciso saber se o presidente e seus apoiadores já consideram o suficiente ou ainda teremos que aguardar mais mortes para iniciar o processo de mudança prometida.

Esperança

Em apoio ao grupo de brasileiros a favor da vida, precisamos falar de esperança.

Uma boa notícia é que tem diminuído o número dos que acreditam no presidente e negam a gravidade da doença. A tragédia humanitária tem forçado muitos a compreenderem a importância de uma atuação individual e coletiva para conter tantas mortes

Campanha Nem pense em me matar - Divulgação da campanha - Divulgação da campanha
Imagem: Divulgação da campanha

Essa consciência tem vindo, infelizmente, após perdas muito próximas.

Em manifesto publicado na última semana, economistas, banqueiros e empresários cobraram do poder público medidas mais eficazes de combate à pandemia, como avanço da vacinação, auxílio emergencial aos mais vulneráveis e ações de isolamento. Um entendimento de que a economia necessita do controle da doença para voltar a crescer.

Esperança também que vem do movimento de mulheres que, finalizando março, o Mês da Mulher, lançaram na quinta-feira (25) a campanha: "Nem pense em me matar", um levante feminista e suprapartidário contra o feminicídio.

O movimento denuncia a omissão do governo em proteger vidas, chama atenção para o fato de a pandemia ter deixado mulheres ainda mais vulneráveis à violência e aponta que, em 2020, o Brasil registrou, a cada cinco minutos, uma denúncia de violência contra a mulher.

"Resistência em mim se acendeu".
"Violência não vai me represar".
"Sou parte de uma floreira que sua mão não vai podar".

São versos da canção Meu Corpo, composta por Cris Pereira e cantada por Fabiana Cozza, para embalar a campanha. Um grito contra o genocídio daquelas que, diferentemente de Bolsonaro, torcem pela vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL