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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Modelo em 'A Fazenda' mostra que a moda ainda é avessa à diversidade

A modelo Dayane Mello, integrante de A Fazenda - Reprodução/RecordTV
A modelo Dayane Mello, integrante de A Fazenda Imagem: Reprodução/RecordTV
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

26/09/2021 04h00Atualizada em 26/09/2021 20h43

Antes do acusação de estupro que motivou a expulsão do cantor Nego do Borel do reality show A Fazenda 13, neste sábado, 25, a modelo Dayane Mello havia se envolvido em uma polêmica por conta de falas ditas no programa.

A modelo fez um comentário nesta semana que expõe a manutenção de padrões de beleza racistas no mundo da moda.

Dayane disse para um colega de confinamento que não queria pegar sol porque não pode ficar morena para o trabalho dela, já que as marcas "querem uma beleza em um corpo mais elegante do que muito morena".

A fala da modelo catarinense de 32 anos vai na contramão de um movimento por diversidade estética no mundo da moda e da publicidade.

Já há muitas marcas que têm investido em campanhas que celebram a chamada "beleza real", encontrada em diferentes tons, formatos e características específicas de pessoas livres e de bem com seus corpos.

A espontaneidade e sinceridade da fala da modelo revela contudo que ainda há um longo caminho até que os traços físicos não determinem qualidades como elegância, sofisticação, competência e beleza. Isso é racismo."

Como aceitar esse padrão único em um país de encontros étnicos que geraram uma população tão diversa?

E o que fazer diante de um sol que brilha forte na maior parte do ano nas cidades brasileiras?

Construções levam sombra a praias

Ironicamente, o mercado imobiliário vem se esforçando para evitar que a população brasileira tome sol, ao menos nas praias.

Reportagem da jornalista Maria Carolina Santos, publicada na Marco Zero, revela que o fenômeno de sombreamento das orlas brasileiras, já visto em cidades como Recife (PE) e Camboriú (SC), se expande pelo Brasil. A próxima vítima é a capital baiana.

Sombra na Praia de Camboriú-SC - Anderson Coelho / Folhapress - Anderson Coelho / Folhapress
Sombreamento das praias, já visto em orlas como de Recife e Camboriú (foto), agora atinge Salvador.
Imagem: Anderson Coelho / Folhapress

Sob críticas do Instituto de Arquitetos do Brasil, dois condomínios de luxo que estão sendo construídos na orla de Ondina, bairro concorrido no Carnaval de Salvador, ultrapassam os limites de altura estabelecidos pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano da cidade.

Porém há brechas no próprio regulamento urbano, que são utilizadas pelas construtoras para subir espigões nos limites da praia.

Turistas buscam por praias com sol

Os empreendimentos contaram com amplo apoio da Prefeitura de Salvador, que inclusive realizou a revitalização da região, agregando ainda mais valor aos imóveis.

Além de ignorar os impactos para a população da cidade, a gestão municipal parece não compreender o apelo turístico que têm as praias ensolaradas para uma cidade que depende tanto da economia gerada pelos visitantes que buscam lazer e diversão não apenas no verão.

Se nada for feito para impedir esse avanço de prédios na orla, teremos ricos com suas varandas gourmet com vistas para o mar, enquanto banhistas recebem sombra nas áreas da praia.

Imaginem um Brasil de praias sombreadas, sem sol, sem luz e de calor refletido pelas construções.

Talvez só faça sentido para o mercado das marcas para as quais a modelo Dayanne Mello trabalha, onde o bronzeado é o inimigo e o padrão é a "elegância pálida".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL