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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

E se a vida de Pelé ou Beyoncé fosse interpretada por artistas brancos?

Ilustração de Esperança Garcia e a ex-BBB Gyselle Soares, que interpreta no teatro a vida da escravizada símbolo da resistência negra - Ilustração/Instituto Esperança Garcia e Arquivo Pessoal
Ilustração de Esperança Garcia e a ex-BBB Gyselle Soares, que interpreta no teatro a vida da escravizada símbolo da resistência negra Imagem: Ilustração/Instituto Esperança Garcia e Arquivo Pessoal
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

16/10/2021 04h00

A tentativa de embranquecimento de figuras históricas negras, como já ocorrido com o escritor Machado de Assis, ganha mais um capítulo. A personalidade desta vez é Esperança Garcia, símbolo da resistência à escravidão.

A escolha da ex-BBB Gyselle Soares para interpretar no teatro a vida da escravizada dificulta uma luta histórica pela valorização de trajetórias inspiradoras de pessoas negras.

Mantém a lógica racista de limitar a artistas de pele preta personagens marcados pela exclusão e desvalorização social, enquanto o heroísmo é destinado aos brancos."

Se a história fosse de uma escrava violentada e humilhada sem resistência provavelmente a escolha não seria da ex-BBB. Mas, como se trata de uma trajetória reconhecida pela historiografia e aplaudida por setores da sociedade, interessa à ideologia racial brasileira que a imagem seja associada a uma pessoa branca.

É como se o brilhantismo do Rei do Futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, fosse retratado pelas artes em um corpo não negro. Ou o fenomenal talento da diva pop Beyoncé fosse contada na pele de uma mulher branca."

Pode parecer uma inversão ficcional corriqueira para o campo das artes (imitar, usar máscaras, fingir o que não são). Contudo, na prática, trata-se de raras oportunidades para que a imagem de uma pessoa negra seja vista em histórias positivas.

Infelizmente não são poucos os momentos em que a mídia em geral utilizou-se de blackface ou mesmo cara limpa para contar histórias evidentemente negras, como a saga do Egito embranquecida por Hollywood e na telenovela da Record.

Machado de Assis na campanha da Caixa Econômica - Reprodução - Reprodução
Em 2011, Machado de Assis foi interpretado por um ator branco na campanha de 150 anos da Caixa Econômica Federal. Após críticas, o banco apresentou uma nova versão da propaganda, 'em respeito ao povo brasileiro'
Imagem: Reprodução

Carta escrita por Esperança Garcia foi 'petição' contra violência

Em uma sociedade que insiste em não reconhecer as contribuições do negro para a história deste país e que ainda narra o passado, apagando o protagonismo de homens e mulheres pretas, é inaceitável que uma atriz de pele clara interprete a vida de Esperança Garcia.

A escravizada que nasceu no Piauí, em 1751, tornou-se símbolo da luta da população negra contra a violência do sistema escravista e pelo direito à cidadania.

Uma carta escrita por Esperança Garcia, datada de 1770, e endereçada ao governador da província do Piauí, descreve as violências físicas sofrida por ela e seu filho, ainda criança.

No documento, Esperança, que provavelmente foi alfabetizada por jesuítas, também reivindica o direito, dela e de outras escravizadas, a se confessar e a batizar os filhos.

A carta foi localizada em 1979 no Arquivo Público do Piauí, pelo historiador Luiz Mott e é considerada uma das primeiras reivindicações escritas à mão por uma pessoa escravizada e dirigida a uma autoridade.

A forma como foi redigida tornou a carta uma petição, por expor os fatos —violência sofrida por escravizados—, basear-se no direito e apresentar um pedido objetivo: o retorno à fazenda de onde foi retirada e o direito de viver ao lado do seu marido e de batizar sua filha.

Por essa construção textual e estratégias de defesa apresentadas, Esperança Garcia é considerada a primeira advogada do Piauí e uma das primeiras do Brasil.

Conheça mais sobre esse legado por meio da Fundação Esperança Garcia.

Escravizada é pioneira na escrita de mulheres negras

A trajetória de Esperança Garcia conta ao país, a um só tempo, que pessoas negras lutaram com todos os meios possíveis por liberdade e que uma das armas utilizadas era o domínio da escrita e o conhecimento dos seus direitos, mesmo escassos à época.

Essa é uma notícia que faz muita diferença para um país que ainda hoje resiste em considerar a contribuição intelectual e criativa da população negra, sobretudo, a escrita de mulheres negras.

São raras as escritoras de pele preta com obras reconhecidas pelos espaços legitimadores, como editoras, universidades, jornais e academias de letras.

A carta de Esperança Garcia antecede o trabalho da maranhense Maria Firmina dos Reis (1822-1917), autora de Úrsula, de 1859, primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil.

Esperança também é antecessora das escritas de resistência de mulheres negras em diversas áreas ainda controladas pelo racismo e sexismo, como literatura, jornalismo, educação, política, direito e todo o sistema jurídico.

Para que essa referência potente se materialize como inspiração às novas gerações é fundamental que a história de Esperança Garcia seja contada, evidenciando o fato de ela ter sido uma mulher negra. Assim, mais pessoas pretas terão motivos de orgulho e de encorajamento no enfrentamento às segregações.

Além disso, toda a sociedade poderá ser convencida de que dignidade e cidadania são condições essenciais para pessoas de "todas as cores", inclusive as de pele preta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL