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André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assim como personagens de Medida Provisória, Lázaro Ramos insiste no Brasil

Medida Provisória: filme mostra Brasil distópico que não está tão longe da realidade - Divulgação
Medida Provisória: filme mostra Brasil distópico que não está tão longe da realidade Imagem: Divulgação
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André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

14/04/2022 04h13

Quem estava aguardando uma razão para voltar às salas de cinema após mais de dois anos de pandemia e saturação da experiência de assistir filmes apenas na tevê de casa poderá conferir a partir de hoje Medida Provisória, longa brasileiro dirigido por Lázaro Ramos.

Uma excelente oportunidade para retornar à experiência de ver a arte brasileira, com nossos sotaques, nossas músicas, nossas paisagens e o talento dos nossos artistas na tela grande.

Dá para rir, chorar, se indignar diante dos nossos reais problemas e ainda sair com certa esperança e muita aflição diante do pouco que nos resta para vivenciarmos o cenário apontado no filme.

Lázaro Ramos —ator, escritor, apresentador, diretor de teatro e agora cineasta— reuniu um super elenco para contar uma história distópica baseada na peça teatral Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação (Prêmio Jabuti de 2013).

Em um futuro próximo, o acirramento das tensões raciais e a exigência cada vez maior da população negra por direitos, motiva o governo brasileiro a uma medida drástica: enviar compulsoriamente todos os cidadãos "de melanina acentuada" para o continente africano.

Elenco negro e participações especiais

Para viver os dilemas de um país em conflitos, tal qual o Brasil de 2022, o elenco traz Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Alfred Enoch, Renata Sorrah, Mariana Xavier, Rejane Maia, Jéssica Ellen, Hilton Cobra, o próprio Aldri Anunciação e uma lista enorme de artistas que sentem na pele a agonia de serem negros em uma nação violentamente racista.

Entre as participações especiais estão Emicida, Tia Má, Conceição Evaristo e Dona Diva Guimarães, professora que emocionou Lázaro e o país durante a Flip 2017 com seu relato sobre o preconceito sofrido ao longo da vida. São muitas as referências e homenagens às resistências negras contidas no filme.

Além de abordar alguns dos temas atuais que atravessam o racismo no Brasil, como cotas, colorismo, casais inter-raciais, reparação econômica, afrofuturismo, entre outros, a presença de tanta gente preta na tela já faz do filme um acontecimento artístico e político.

Medida Provisória exalta o talento dos artistas negros em evidência na tela e de outros tantos profissionais negros na condução do filme, nas escolhas da direção, do roteiro, produção, trilha sonora, etc.

Decisão de um diretor que estreia na função com uma bagagem repleta de experiências coletivas de fortalecimento do protagonismo de pessoas pretas e de valorização da arte negra.

De onde vem a esperança

O que faz um homem preto, nascido em um país racista e violento contra as pessoas pretas como o Brasil, continuar acreditando neste lugar que o despreza, fazendo questão de permanecer, vivendo e trabalhando aqui e lutando ao lado do seu povo?

Esse questionamento, provocado pelo personagem Antônio, um dos protagonistas do filme, vivido pelo ator Alfred Enoch, poderia ser bem respondido pelo diretor.

Lázaro Ramos nos bastidores do filme 'Medida Provisória'. - Divulgação - Divulgação
Lázaro Ramos nos bastidores do filme 'Medida Provisória'. Ele dirigiu também a peça que inspirou o filme
Imagem: Divulgação

Lázaro Ramos, 43, confia sua arte e seu talento à esperança em um país.

Por isso, em tudo que faz, além do seu brilho individual, faz reluzir a potência de um povo, que mesmo violentado, insiste em apostar no Brasil, em oferecer saídas, alegrias, belezas e possibilidades.

No grito de Antônio, na sacada do prédio, afirmando sua nacionalidade brasileira, ecoa a angústia de pretos retintos como Lázaro Ramos, que precisam lembrar a todo instante que são brasileiros, possuem direito à cidadania e merecem respeito deste país.

Carreira com identidade e posicionamento

No registro da distopia, os negros querem contribuir com suas capacidades e inteligências: Antonio é advogado, seu primo André (interpretado por Seu Jorge) é jornalista, Capitu (Taís Araújo) é médica. Tantas potencialidades descartadas na autoritária atitude da expulsão.

No Brasil de agora, a tragédia é ainda mais latente. Ao invés de mandados para o continente africano, talentos negros são desprezados cotidianamente pelo subemprego desumano, pelo encarceramento em massa ou pela execução feita pelo próprio Estado genocida.

Mas, mesmo assim, Lázaro segue acreditando. Herdou da sua família a resistência e a solidariedade vivenciadas na Ilha do Pati, território preto do Recôncavo da Bahia.

No Bando de Teatro Olodum, em Salvador, onde estreou como artista, aprendeu sobre a potência da arte e do palco quando utilizados coletivamente e a favor de uma causa justa e urgente.

Com a sua consciência e seu compromisso, atualizou todas as informações e referências recebidas e negociou de forma estratégica em espaços de visibilidade como o cinema e a televisão, possibilitando que a sua arte ampliasse o alcance e abrisse caminhos para outros de mesmo propósito.

Desde que despertou a atenção da crítica pela interpretação do excêntrico Madame Satã no cinema, em 2002, e conquistou o país com o divertido Foguinho, de Cobras & Lagartos, em 2006, Lázaro foi construindo uma identidade própria, expressa em cada personagem e em cada história que ajudou a contar.

É possível encontrar em todas elas, seja nas atitudes das personagens ou na entrega do intérprete, o desejo de não desistir, de continuar acreditando, apesar das negativas dadas pelo Brasil.

Está lá em criaturas como o Roque, de Ó paí, ó (2007), ou o Zé Maria, de Lado a Lado (2012), a afirmação contundente das causas que o ator defende, sem perder a ternura e a esperança.

Do lugar de diretor, agora ele pode ainda mais apostar no lirismo frente à violência, atitude rara entre os diretores brancos que filmam dramas negros.

Em Medida Provisória, os afetos transbordam nas cenas de amor negro, embaladas pela música de artistas que têm cantado nossas dores e nossos desejos, como Baco Exú do Blues, Liniker e a eterna Elza Soares.

As cenas do bunker criam uma expectativa de imaginarmos como seria um quilombo contemporâneo, futurista, de liberdade e criatividade. Uma pena o enredo da presença do homem branco ganhar mais destaque naquele cenário negro tão potente. Um incômodo que pode nos servir de alerta sobre o que tem desviado o foco das nossas lutas e conquistas.

Alfred Enoch e Tais Araujo em cena de 'Medida Provisória' - Divulgação - Divulgação
Alfred Enoch e Tais Araujo em cena de 'Medida Provisória'
Imagem: Divulgação

Diante do caos, Antônio queria permanecer no Brasil, amar sua companheira e ter um filho que herdaria a condição de ser preto e brasileiro.

É um possível alter ego do diretor, que também insiste e que mergulha profundamente em sua arte, ao lado da sua esposa, presença luminosa no filme e na carreira.

Para que não haja dúvida acerca da sua mensagem, o diretor também faz a caminhada da esperança, junto ao seu futuro. Um futuro possível oferecido ao Brasil.

Temos um chamado irrecusável: vamos todos caminhar com Lázaro Ramos e seu filme Medida Provisória. Precisamos encher as salas de cinema e fazer transbordar a esperança.