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Augusto de Arruda Botelho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Erramos

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Augusto de Arruda Botelho

Advogado criminalista, cofundador, ex - presidente e Conselheiro nato do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), Conselheiro da Human Rights Watch Brasil e do Projeto Inocência.

Colunista do UOL

11/02/2022 17h00

Esta semana foi marcada por dois graves episódios de manifestações públicas envolvendo o Nazismo em nosso país. Houve uma enorme repercussão e respostas rápidas em ambos. Num deles, protagonizado por Monark, a própria empresa de que ele é fundador e um dos donos, percebendo que em poucas horas havia perdido vários dos seus patrocinadores, resolveu comprar a parte de Monark na sociedade, para de alguma forma tentar deter os danos causados pela grave e repugnante manifestação feita por ele em seu podcast, o Flow.

O segundo episódio, tão grave quanto, se deu na rádio que é palco de polêmicas diárias, ora envolvendo seus comentaristas e apresentadores, ora envolvendo a sua própria linha editorial: a Jovem Pan. Adrilles, agora ex-funcionário da rádio, fez um gesto, uma saudação nazista, ao encerrar seu programa.

Houve em ambos os casos uma tentativa de explicação, a costumeira afirmação de descontextualização do ato e da fala, um pedido de desculpas, mas isso não foi suficiente para conter o cancelamento não apenas virtual, mas comercial, profissional e social, e tais consequências eram sim certas e necessárias.

A reflexão que pretendo fazer aqui não é apenas e tão somente sobre esses dois fatos, mas sim um questionamento mais profundo e que se mostra bastante perturbador: como chegamos até aqui? Como podemos, em fevereiro de 2022, estar enfrentando a realidade de duas personalidades públicas com milhões de espectadores em audiência chegarem ao cúmulo de cogitar a possibilidade de se discutirem práticas, discursos ou qualquer ato de apologia ao Nazismo? Onde erramos como sociedade? O que fizemos em um passado recente que permitiu a esse tipo de gente se ver alçado a uma posição de destaque? É de se perguntar: como foi que Adrilles Jorge se tornou comentarista de uma rádio, uma concessão pública, com tamanha audiência como a Jovem Pan? Como Monark virou apresentador de um dos podcasts mais ouvidos do Brasil? Onde está o erro? Que parte da sociedade falhou a ponto de deixar imbecilidades criminosas como as que ouvimos nos últimos dias serem confortavelmente ditas por figuras públicas?

Importante também lembrar que um Deputado Federal, Kim Kataguiri, não se inibiu ao fazer a uma construção abjeta, também motivo de posterior pedido de desculpas, ao propor a não criminalização da ode ao Nazismo. Faço aqui, então, a pergunta: como foi que elegemos um parlamentar que tem a cara de pau de assim se manifestar publicamente?

Confesso que não tenho no momento resposta para todas essas questões, mas posso tranquilamente atestar: erramos, e muito, em algum momento.