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Augusto de Arruda Botelho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Ucrânia não é um condomínio da Barra da Tijuca

Globo terrestre murcho. - Getty Images/iStockphoto/luoman
Globo terrestre murcho. Imagem: Getty Images/iStockphoto/luoman
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Augusto de Arruda Botelho

Advogado criminalista, cofundador, ex - presidente e Conselheiro nato do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), Conselheiro da Human Rights Watch Brasil e do Projeto Inocência.

Colunista do UOL

18/02/2022 04h00

A viagem de Bolsonaro à Rússia e à Hungria é um completo fiasco. Organizada meses atrás, poderia muito bem ter sido cancelada em virtude do momento de tensão militar que a região enfrenta.

Mesmo sem esse fato, não traria benefícios importantes para o Brasil, já que Bolsonaro e seu governo demonstraram durante os anos de sua gestão serem incapazes de firmar acordos comerciais até com seus maiores parceiros nos negócios, como é o caso da Rússia.

A explicação é óbvia: Bolsonaro é um pária no mundo. Sua política negacionista em todos os aspectos, seja na condução da pandemia, seja no tratamento que dá ao meio ambiente e até mesmo na sua postura, nos isola do mundo em todos os aspectos.

Putin o recebeu por obrigação. Tem, como chefe de Estado, o dever de abrir espaço em sua agenda para receber presidentes de todo o mundo, inclusive o nosso.

Do ponto de vista econômico, estratégico, Bolsonaro retornará do seu tour de mãos abanando. Por outro lado, sua equipe de campanha voltará recheada de fotografias, selfies, memes, cards, slogans, alguns deles cuidadosamente envelopados de anedotas e fake news estratégicas, prontas para serem usadas na campanha eleitoral. E aqui está a real razão da viagem de Bolsonaro à Rússia e à Hungria: ele foi fazer campanha com o dinheiro do contribuinte.

Milhares de quilômetros foram percorridos para que o Presidente, acompanhado de uma numerosa e cara comitiva, pudesse tirar uma foto ao lado de Vladimir Putin. Milhares de euros foram gastos para que seus apoiadores, seu gabinete do ódio e sua equipe de comunicação pudessem disparar nos canais do Telegram, do WhatsApp e das redes sociais não só fotografias como montagens de capas de revistas falsas, supostos prints de entrevistas para canais internacionais de televisão e manchetes nunca existentes anunciando que Bolsonaro teria salvado o mundo de uma nova guerra e poderia quem sabe ser indicado para o prêmio Nobel da paz.

É evidente que para uma parte da população tudo não passa de montagem, de meme. Por outro lado, para muita gente esse discurso cola. Tenho certeza de que milhares de pessoas de fato acreditarão que Bolsonaro esteve estampado na capa da revista Time, por exemplo e, que de alguma forma, se não está neste momento acontecendo uma guerra entre Rússia e Ucrânia - cá entre nós, Bolsonaro sequer sabe apontar esse país no mapa -, um dos responsáveis pela não ocorrência desse conflito é, justamente, o nosso Messias.

A comprovação de que o tour bolsonarista não passa de uma campanha é a visita à Hungria. Na atual conjuntura e analisando a relação e a parceria econômica entre Brasil e Hungria, é este o momento adequado para visitar aquele país? A resposta parece simples: não.

Então, fica a pergunta: o que Bolsonaro está fazendo lá? A resposta é mais simples ainda: naquele país há um líder declaradamente de extrema direita, adorado por muitos dos eleitores e apoiadores do nosso Presidente.

Bolsonaro, então, atravessa o oceano para dar um abraço em um extremista autoritário só porque os nossos extremistas autoritários daqui gostam do extremista de lá. É isso, nada mais do que isso.