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Augusto de Arruda Botelho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro passa pano para a corrupção

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Augusto de Arruda Botelho

Advogado criminalista, cofundador, ex - presidente e Conselheiro nato do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), Conselheiro da Human Rights Watch Brasil e do Projeto Inocência.

Colunista do UOL

25/03/2022 11h37

O combate à corrupção em nosso país é uma pauta essencial sob diversas óticas. A prática da corrupção, não apenas a corrupção milionária, mas a corrupção do dia a dia, enraizada em nossa sociedade, muitas vezes não é punida. A anulação de grandes operações causadas por graves violações a direitos e garantias fundamentais traz evidentemente uma sensação correta de que esse crime, de certa forma, passa impune no Brasil.

A corrupção gera também um impacto direto na economia. Desequilibra a concorrência, compromete a qualidade das obras e serviços públicos, privilegia algumas empresas em detrimento de outras e, com o desvio vultoso de dinheiro, impede a destinação correta de recursos que poderiam ser aplicados em áreas essenciais.

O governo Bolsonaro foi eleito sob alguns lemas, e um deles era justamente o do fim da corrupção. Nosso presidente, um mitômano, até hoje insiste na narrativa de que não há corrupção em seu governo. Uma mentira deslavada. E os escandalosos fatos divulgados, ocorridos no âmbito do Ministério da Educação, nos mostram isso. Muito mais revoltante do que os áudios divulgados com diálogos que coram as bochechas dos maiores bandidos foi a reação do governo federal e do próprio presidente.

Num primeiro momento, tentou ele trazer a discussão para o campo religioso, como se houvesse por parte da imprensa e do campo que lhe faz oposição política uma tentativa de criminalizar os evangélicos, já que no áudio havia a interlocução de um pastor.

Pouco importam a crença e a fé de quem comete um crime, pouco importam a ideologia, o partido político ou o time de coração de quem rouba. A punição, quando feita dentro das quatro linhas da Constituição, não deve ter qualquer outro limite.

Num segundo momento, vendo que a narrativa da religião não seria suficiente para acalmar a justa cobrança da sociedade, Bolsonaro simplesmente optou, mais uma vez, por apertar o botão do "não estou nem aí". Disse ele, com uma gigantesca cara de pau, que não viu nada demais nos fatos ocorridos, mesmo depois de o próprio Ministro da Educação, ciente da gravidade da situação, ter colocado seu cargo à disposição do governo.

Que fique claro. Bolsonaro não acabou com a corrupção; Bolsonaro jamais quis enfrentar a corrupção em nosso país. Muito pelo contrário, ela continua a correr solta, sob as barbas do governo e agora muito pior: com uma Polícia Federal aparelhada, controlada, desmotivada, que tem em seu quadro excelentes profissionais que muitas vezes sequer conseguem agir. De outro lado, temos também um Ministério Público Federal cujo representante máximo parece muitas vezes não querer ver o óbvio, que aquele que o indicou está muito mais ao lado e junto de quem o Ministério Público deveria perseguir: os fora da lei.