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Brasil invisível: como 11,3 milhões de analfabetos vão receber os R$ 600?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

16/04/2020 14h38

Não vá aos bancos. Não vá às agências do INSS e da Receita Federal. Você pode resolver tudo pela internet ou pelo celular. Que maravilha!

Sim, e quem não tem internet nem celular, como é que faz?

Desde que começou a distribuição de R$ 600 pelo governo aos mais miseráveis para o enfrentamento da pandemia, as autoridades sanitárias dos governos não se cansam de repetir os mesmos conselhos: fique em casa.

E, no entanto, dia após dia, aumentam as filas em torno das agências de cidadãos que não conseguem regularizar seu CPF e outros dados para receber o benefício, amontoados nas calçadas e expostos à contaminação. .

É a legião dos mais miseráveis entre os miseráveis, os 11,3 milhões de brasileiros analfabetos, com 15 anos ou mais, segundo o IBGE, que não têm contas em banco, nem acesso à internet e aos celulares, e vivem sem documentos.

Mesmo que todos ganhassem um lap-top e um celular de presente, não saberiam como operar estas maravilhas do mundo digital.

Eu mesmo confesso que teria dificuldades para preencher os formulários e entender as regras para os pagamentos.

E são justamente esses brasileiros invisíveis nos cadastros do governo os que mais precisam de ajuda neste momento.

Em todo o país, eles passam dias e noites nas filas à espera de uma senha, e voltam para suas casas, os que ainda têm onde morar, sem conseguir receber o meio salário-mínimo que pode livrá-los da fome.

Responsável pelos pagamentos, o ministro da Cidadania, o ínclito Onyx Lorenzoni, se limita a repetir que a triagem dos documentos é necessária para evitar fraudes, mas não mostra nenhum interesse em resolver o drama dos analfabetos funcionais e digitais que ficaram de fora das listas enviadas à Caixa Econômica Federal.

Este é o retrato mais dramático da desigualdade social que se alastra pelo país e, ao mesmo tempo, oferece os mais comoventes sinais de solidariedade.

Para que as pessoas não morram de fome nas filas, vizinhos dessas agências, pessoas também humildes, levam água e comida aos desesperados, que choram de vergonha quando são entrevistados na televisão.

Lorenzoni, o sabujo-mor, está mais preocupado em elogiar o presidente Bolsonaro em suas entrevistas coletivas do que em dar atenção a estes brasileiros chamados de "vulneráveis", que simplesmente não conseguem provar ao governo a própria existência.

Assim como estão sendo montados às pressas hospitais de campanha, o Ministério da Cidadania também poderia providenciar um serviço emergencial de auxílio à multidão de excluídos da internet e de celulares para que eles possam receber a ajuda do governo.

A cada semana que passa sem que seja encontrada uma solução para esses brasileiros marginalizados da cidadania, em breve teremos mais gente morrendo de fome do que de coronavírus.

Afinal, 11,3 milhões de pessoas não é pouca gente. É quase a população da cidade de São Paulo, a maior do país.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho