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"Agora é guerra": Bolsonaro faz terrorismo e anuncia caos, saques, miséria

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

14/05/2020 15h51

Em conflito aberto contra as autoridades sanitárias, governadores e prefeitos, o presidente Jair Bolsonaro fez nesta quinta-feira uma série de ameaças terroristas para gerar pânico na população caso não haja a imediata reabertura do comércio.

No começo da fase mais grave da pandemia de coronavírus, que já deixou mais de 13 mil mortos no país, durante mais uma videoconferência com empresários liderados por Paulo Skaf, da Fiesp, Bolsonaro anunciou que "agora é guerra" (cabe aqui perguntar quantas videoconferências o presidente já fez com representantes de trabalhadores).

"Vocês precisam jogar pesado contra os governadores (...) Nós temos que mostrar a cara, botar a cara para apanhar. Porque nós devemos mostrar a consequência lá na frente. Eu tenho falado com o ministro Fernando (Azevedo), da Defesa, os problemas vão começar a acontecer, caos, saque a supermercados, desobediência civil".

Nós quem, cara pálida?

De manhã, logo ao sair do Alvorada, Bolsonaro começou a espalhar o medo em conversa com jornalistas.

"Vai faltar dinheiro para pagar servidor público (...) O Brasil está quebrando, e depois que quebrar não é como alguns dizem que a economia recupera. Não recupera. Vamos ser fadados a viver como um país de miseráveis. O lockdown é o caminho do fracasso, vai quebrar o Brasil. O caos se fará presente."

O objetivo de Bolsonaro é acabar com o isolamento social, defendido pela OMS e pelo Ministério da Saúde como única forma de controlar o avanço do coronavírus.

Mais de 50% da população de todos os estados já abandonou a quarentena, seguindo as recomendações do doutor Bolsonaro, e os números de mortos e contaminados não param de crescer, levando todo o sistema de saúde ao colapso.

"Esquece o Mandetta", reagiu Bolsonaro ao ser perguntado sobre as declarações do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Em entrevista a Jamil Chade, do UOL, o ex-ministro alertou para o fato de que "o surto no Brasil está apenas começando" e, à rede americana CNN, declarou que o número diário de mortes pode ultrapassar a marca dos mil casos por dia.

"A população não sabe para que lado vai. Eu dizia uma coisa e o presidente dizia outra", lembrou Mandetta, para quem o Brasil está pagando o preço dos atritos que o governo Bolsonaro criou com a China, principal fornecedor de insumos hospitalares.

Além dos governadores, outro alvo de Bolsonaro durante a conversa com empresários foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não citado nominalmente, acusado de "afundar a economia para ferrar o governo".

Preocupado apenas em salvar a própria pele, o presidente quer ter os empresários como aliados no seu combate sem tréguas contra a ciência, a medicina, o bom senso e a humanidade, como demonstrou na semana passada naquela passeata da morte para encurralar o presidente do STF, Dias Toffoli.

Nos últimos dias, Bolsonaro acelerou sua ofensiva contra os outros poderes e entes da federação, que estariam todos conspirando contra ele. Só o presidente está certo, o resto do mundo está errado.

Já vimos isso acontecer em outros momentos dramáticos da história, e o final não foi bonito.

E o resto do mundo está preocupado com os rumos que o Brasil está tomando em plena pandemia do coronavírus.

Em Genebra, sem citar nomes, a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, MIchelle Bachelet, alertou que alguns grupos políticos no Brasil podem representar uma "ameaça à democracia".

Bachelet disse que uma parcela das forças políticas estaria sugerindo "uma participação militar", que na verdade já é cada vez maior, a começar do Palácio do Planalto.

Na véspera, o sumido ministro da Saúde, Nelson Teich, um fantoche que substituiu Mandetta, anunciou que vai nomear mais 37 militares para a sua equipe.

Ao mesmo tempo em que Bolsonaro diz que o dinheiro do governo acabou e escândalos de corrupção se sucedem na compra de equipamentos para os hospitais, o governo baixou, durante a madrugada, uma nova medida provisória isentando agentes públicos de serem responsabilizados por erros que cometerem durante o enfrentamento da pandemia. Por que de madrugada?

"O mero nexo de causalidade entre a conduta e o resultado danoso não implica responsabilização do agente público", diz a MP 966.

Parece um "salvo-conduto" feito sob medida para o próprio Bolsonaro para o dia em que for cobrado por suas ações ou omissões no combate ao coronavírus, que já registrava 188.974 casos na quarta-feira, uma curva que não para de subir. Nas últimas 24 horas, o país tinha batido um novo recorde, com mais 11.385 casos.

Nada disso importa para quem planejava ações terroristas por melhores salários quando era tenente do Exército.

É no confronto, agora aberto, contra tudo e contra todos que o atual presidente da República joga com a vida de 210 milhões de brasileiros.

Aonde ele quer chegar?

Vida que segue.

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Balaio do Kotscho