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Vídeo estarrecedor coloca a nu o governo dos aloprados de Bolsonaro

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

22/05/2020 20h56

Se Bolsonaro queria mesmo interferir ou não na Polícia Federal, na reunião ministerial de 22 de abril, isso virou mero detalhe diante do conjunto de barbaridades ditas pelo presidente e seus 22 ministros no vídeo de pornô político divulgado ao distinto público, nesta sexta-feira, pelo STF.

Confesso que, ao final, senti náuseas e vergonha de ser brasileiro, me deu vontade de vomitar.

"Esta reunião ministerial tem um repertório inacreditável de crimes", resumiu, melhor do que qualquer analista político, o governador do Maranhão, Flávio Dino, que é juiz formado na mesma turma de Moro.

Palavrões, delírios, ameaças, baixarias e mentiras à parte, me senti assistindo a uma reunião de condomínio na Barra da Tijuca ou da milícia de Rio das Pedras.

Demorei para começar a escrever este texto porque não sabia nem por onde começar, tamanho foi meu espanto diante do que vi e ouvi, um filme de horror.

Como foi possível reunir um bando de gente tão desqualificada, medíocre e aloprada para governar o Brasil, sem nenhum compromisso com 210 milhões de habitantes?

É impossível resumir no espaço de um blog as cenas explícitas de puxa-saquismo, de grosseria e desrespeito aos outros poderes, às instituições, à sociedade e a eles próprios.

Acho que todo brasileiro deveria ver com os próprios olhos esse espetáculo deprimente para tirar suas conclusões.

Por isso, vou me limitar a contar qual foi a sensação que me ficou do conjunto da obra, uma porrada no estômago de cada brasileiro com um mínimo de vergonha na cara.

Não que a atuação calhorda do presidente tivesse me surpreendido, mas me deu a impressão de que ali estavam reunidos vários Bolsonaros, e um queria ser mais Bolsonaro do que o outro.

Parece que o motivo da reunião foi o lançamento de um projeto de reconstrução do país chamado Pró-Brasil, coordenado pelo general Braga Netto, chefe da Casa Civil, que logo foi detonado pelo ministro da economia Paulo Guedes.

Mas a conversa descambou para qualquer coisa, até a reabertura de cassinos, rebatizados de "resorts integrados" pelo ministro do Turismo, aquele dos laranjais, ideia prontamente contestada pela ministra Damares Alves, a da goiabeira, que quase teve um chilique. A pastora quer prender governadores e prefeitos que implantaram o isolamento social.

Falou-se de tudo, menos de formas de combater a pandemia do coronavírus, que já se alastrava pelo país no dia da fatídica reunião, com milhares de mortos.

O assunto só foi levantado pelo sinistro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que viu nesta tragédia universal uma "oportunidade para ir passando a boiada e mudar todo o regramento e simplificando normas" para ocupar a Amazônia, como já está fazendo.

"A oportunidade que nós temos, já que a imprensa está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, só fala de coronavírus, é passar as reformas infralegais de regulamentação", porque "tudo que a gente faz é pau no Judiciário no dia seguinte".

Fora a imprensa, o grande inimigo dessa gente é o Judiciário, que só atrapalha.

Depois de dizer que é "preciso acabar com essa porcaria que é Brasília, esse antro de corrupção e de privilégio, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, abriu os braços num gesto pomposo, em direção à janela, para apontar a praça dos Três Poderes, e proclamar:

"Eu, por mim, presidente Bolsonaro, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando pelo STF (...) A gente tá perdendo a luta pela liberdade. É isso que o povo tá gritando".

Bolsonaro aproveitou a deixa do ministro mais sabujo, e emendou um discurso que estava engasgado na garganta.

Com as mãos tremendo, olhos rútilos, ele desabafou como se estivesse num churrasco no Alvorada ou em algum quartel, tropeçando nas concordâncias.

"O que esses filha de uma égua quer, ô Weintraub, é a nossa liberdade. Olha, eu tô... como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil. Eu peço ao ministro da Justiça e ao ministro da Defesa que o povo se arme.! Que é garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua (...) Eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta!. Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura. E não dá pra segurar mais!".

Quem diria, Bolsonaro agora tem medo de ditadura (dos outros) e defende a liberdade (dele).

Lá pelas tantas, minha neta mais velha, de 17 anos, me ligou chorando. "Vô, depois de ver tudo isso ainda dá pra ter esperança no Brasil?".

Pedi para ela me ligar mais tarde porque eu precisava escrever. O que posso responder para a neta, sem mentir?

Na televisão, enquanto escrevo, os comentaristas continuam debatendo se a exibição do vídeo foi boa para Bolsonaro ou para Moro no processo do STF.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho