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E a boiada continua passando, comemorando a grande "vitória"

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/05/2020 16h15

O que está acontecendo com o Brasil, depois do vexame daquele vídeo escabroso do Palácio do Planalto, me fez lembrar o famoso 7 a 1 que tomamos da Alemanha na Copa de 2014.

É como se a torcida com a camisa da CBF saísse do Mineirão, carregando Felipão nos ombros, festejando a "vitória" e gritando "Mito!".

Pouco importam os números que ficaram no placar.

Para a boiada de bolsonaristas, que está aproveitando a "oportunidade" da Covid-19, segundo o grande patriota Ricardo Salles, o importante é o que eles pensam e decidem o que é verdade.

O Brasil ganhou de 7 a 1, e acabou.

Ainda durante a exibição daquele festival de baixarias, o "gabinete do ódio" deflagrou uma "blitzkrieg" nas redes sociais, que ainda não parou, comemorando a atuação histórica do "Mito".

Agora não tem mais erro, garantem eles: a reeleição em 2022 está no papo.

A única reação organizada ao vídeo pornô-político partiu do lado deles: 2 generais, 2 majores e 84 coronéis, todos de pijama, divulgaram um manifesto de apoio ao general Heleno, o chefe do GSI, e de insultos ao Supremo Tribunal Federal.

A ameaça agora não é de "consequências imprevisíveis", como escreveu Heleno em sua nota golpista, mas foi além: os militares alertam para um cenário extremo de "guerra civil".

Só podem estar de brincadeira, mas os bolsonaristas acreditam e jogam nisso, como ficou claro nas intervenções beligerantes de Bolsonaro, entre um palavrão e outro, prometendo armar toda a população contra os "inimigos". .

Não sou especialista em estratégias militares, mas até onde sei uma guerra civil exige pelo menos dois lados em combate.

Em tempos normais, um lado defende o governo, e o outro ataca.

Mas quem seria o outro lado neste caso, se os militares e as milícias estão fechadas com o governo e, até onde a vista alcança, não há nenhum grupo de oposição desafiando Bolsonaro?

Em seu manifesto, os militares revoltosos alegam que falta "decência" e "patriotismo" aos ministros do STF.

Como eles têm coragem de usar justamente essas duas palavras, depois de ver aquele espetáculo deprimente da reunião ministerial em que houve de tudo, menos decência e patriotismo.

Ali cada um queria apenas salvar a própria pele e puxar o saco do chefe, que armou o circo todo só para detonar Sergio Moro, que se fingiu de morto.

Era o único propósito daquela reunião, já que ninguém deu a menor bola ao power point do "PróBrasil", o plano de desenvolvimento com recursos públicos apresentado pelo general Braga Netto, o mestre de cerimônias do governo, que foi solenemente detonado por Paulo Guedes.

Como escreveu Elio Gaspari hoje, em sua coluna na Folha, aquela reunião não serviu para nada, não decidiu nada e evitou discutir ações contra a pandemia de coronavírus que a assola o país.

Feliz com a "vitória" na sexta-feira, ontem Bolsonaro foi comer cachorro quente na rua e hoje fez um passeio de helicóptero para ver a carreata da boiada que foi-lhe dar apoio.

Depois, como costuma fazer nos fins de semana, o presidente seguiu até o Palácio do Planalto para saudar a boiada, abraçar apoiadores e pegar crianças no colo, sem máscara.

Desta vez, com um motivo a mais: estavam todos comemorando o 7 a 1 da "vitória" contra Moro, o STF e o Congresso.

Bolsonaro está se lixando para o resto da população, desde que as redes sociais do filho Carluxo, o 02, mantenham a fidelidade do gado, como carinhosamente se refere aos seus apoiadores.

Mas nem que o "Mito" seja pego em flagrante afanando a sacolinha do bispo, eles vão mudar de opinião. São capazes de jurar que Bolsonaro estava colocando dinheiro na sacolinha.

Não adianta. Aconteça o que acontecer, chova ou faça sol, a boiada vai continuar desfilando solertemente por Brasília, com a camisa da seleção, a bandeira nacional e o grito: "Mito!".

Segundo as últimas pesquisas, eles são apenas 25% do eleitorado, mas é o suficiente para Bolsonaro se achar um napoleão caboclo, e os colegas de Academia das Agulhas Negras do general Heleno acenarem com uma "guerra civil", sem que as instituições se manifestem. Nas redes sociais, eles já devem estar chegando aos 90%. Apitam, correm para a marca de cal e batem o penalti, sem goleiro.

É tudo tão obsoleto, tão medíocre, tão pequeno, tão pobre, tão triste, e ao mesmo tempo, tão assustador, que parece um filme de época em branco e preto da Alemanha, no período entre as duas Guerras Mundiais.

Os judeus e os comunistas agora somos todos nós que não comungamos com o bolsonarismo colocado em marcha pelo comandante Heleno, o nanogeneral que tem raiva do mundo, e barbarizou o povo pobre do Haiti a serviço das tropas da ONU.

Estamos nas mãos dessa gente.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho