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A mesma esgotosfera que o elegeu pode derrubar Bolsonaro

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

09/07/2020 16h43

Nas voltas que a vida dá, o mesmo esquema criminoso montado pelos Bolsonaros nos subterrâneos da internet, desde a campanha eleitoral, e levado para o Palácio do Planalto, que foi escrachado pelo Facebook na quarta-feira, agora pode levar à derrocada final do governo.

Foi o maior golpe sofrido pelo presidente e seus filhos desde a prisão de Queiroz, que pode ser solto a qualquer momento pelo STJ, segundo o colunista Lauro Jardim, do Globo.

Mas nem vai dar tempo para comemorar.

As graves revelações feitas pelo Facebook sobre a armação e o funcionamento da fábrica de fake news, dando nomes aos bois, todos eles ligados à rede montada pelo filho Carluxo, o 02, no "gabinete do ódio" instalado no terceiro andar do Planalto, ao lado do gabinete presidencial, devem imediatamente ser requisitadas pelo STF e pelo TSE para subsidiar os processos em andamento.

Também a CPMI das Fake News, onde Carlos e Eduardo Bolsonaro já são investigados, poderá se abastecer das provas contidas nas 73 contas ligadas ao clã presidencial e aliados, já removidas pelo Facebook, por manipular o uso da plataforma, antes e durante o mandato do capitão. O grande problema é o "antes", que pode levar à cassação da chapa Bolsonaro-Mourão pelo TSE.

Certos da impunidade, os Bolsonaros e aliados deram um verdadeiro passeio pelo Código Penal.

A chamada "ala ideológica", que costumava tomar café da manhã com o presidente no Alvorada e agora quer indicar um novo ministro da Educação, cuidava de orientar e alimentar a extensa rede da milícia digital, que operava com robôs, nomes falsos e codinomes, que podem ser encontrados aqui mesmo, na área de comentários desse blog. .

Sob a liderança de um certo Tércio Arnaud Tomaz, de 31 anos, que Bolsonaro pai descobriu na Paraíba e levou para Brasília, depois de abrigá-lo no gabinete do filho Carluxo, na Câmara Municipal do Rio, os integrantes dessa organização criminosa estavam na folha de pagamentos do Palácio do Planalto ou dos gabinetes de parlamentares aliados, todos com crachá, carro oficial e motorista.

Ou seja, todos eram pagos com dinheiro público para atacar, no horário de trabalho, adversários políticos, instituições e veículos de mídia.

Os disparos em massa feitos por essa rede atingiam cerca de 2 milhões de pessoas, os "bolsonaristas de raiz", que por sua vez compartilhavam o conteúdo por outros tantos voluntários arrebanhados durante a campanha eleitoral.

Numa entrevista coletiva global, Nathaniel Gleicher, diretor de cibersegurança do Facebook, diz que "em cada um dos casos, as pessoas por trás da atividade coordenaram entre si e utilizaram contas falsas como parte central de suas operações para se ocultar e é com base nessa violação de política que estamos agindo".

As milícias de fake news, importadas da campanha de Donald Trump, podem eleger, mas também derrubar presidentes.

O Facebook, que não pode ser chamado de comunista, nos fez esse favor: escancarou as entranhas da esgotosfera que elegeu Bolsonaro, com seus kit gay e mamadeiras de piroca.

Confinado no Alvorada, depois de contrair o coronavírus, o presidente Bolsonaro ainda não havia se manifestado sobre essa denúncia até o momento em que comecei a escrever esta coluna.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho