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Balaio do Kotscho

Morte de voluntário da vacina foi suicídio: mais uma que Bolsonaro perde

Bolsonaro X Doria: a guerra política da vacina continua e pode atrasar vacinação em massa -
Bolsonaro X Doria: a guerra política da vacina continua e pode atrasar vacinação em massa
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

10/11/2020 16h09

"Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", comemorou o presidente, ao compartilhar com um devoto a notícia sobre a suspensão pela Anvisa do teste da Coronavac, após a morte de um voluntário. "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la (sic). O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória".

Bolsonaro agora deu para se referir a ele mesmo na terceira pessoa, como fazia Pelé.

Mal informado, o presidente mentiu mais uma vez em sua campanha contra a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceira com o Instituto Butantan, de São Paulo.

No hospício em que o país vive confinado, a China, o governador João Doria e a ciência são considerados inimigos.

Vale tudo para combater, ao mesmo tempo, o comunismo internacional e um possível adversário no caminho da reeleição, o único objetivo do presidente no momento.

Mas o voluntário, um rapaz de 33 anos, que se submeteu ao teste da Coronavac, não morreu por causa disso, segundo apurou o UOL.

Cometeu suicídio, como consta em boletim de ocorrência da polícia paulista.

Fake news e "dane-se"

"O evento adverso foi analisado e não teve relação com a vacina. E essa informação está de posse da Anvisa desde o dia 6", reagiu o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, que foi surpreendido pela notícia na segunda-feira (9).

Não foi a primeira vez que se tentou desmoralizar e criminalizar a vacina. No início do mês, o cirurgião Antonio Luiz Macedo, médico do presidente Jair Bolsonaro, já havia divulgado mensagem num áudio de cinco minutos sobre a morte de um voluntário brasileiro, que havia tomado a vacina contra a covid-19. A notícia foi logo desmentida, mas ele não voltou mais ao assunto.

Apresentando-se como "cirurgião do aparelho digestivo, conhecido no Brasil inteiro, médico responsável pelas cirurgias de Bolsonaro", Macedo pediu mais "respeito aos brasileiros, porque nós não somos cobaias para sermos testados com vacinas que não têm aprovação de ninguém". É o mesmo discurso do governo.

Com um general no Ministério da Saúde, que se cercou de militares, a Anvisa virou mais um instrumento político nas mãos dos negacionistas da pandemia, num país que mantém a média móvel de mais de 300 mortes por dia e já registrou mais de 160 mil óbitos.

A irresponsabilidade do atual governo nesta questão de saúde pública já passou de todos os limites. A última pesquisa Datafolha mostrou esta semana que caiu o índice dos que apoiam a vacinação obrigatória, combatida por Bolsonaro.

Comemora-se a morte de alguém só para provar que se tem razão e poder fustigar um adversário. Me desculpem os bolsonaristas aqui do blog, mas isso não é normal. "O povo que se dane."

Perdeu, Bolsonaro.

Vida que segue.