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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maluf chegou ao poder: Bolsonaro não criou o bolsonarismo, é cria dele

Há 14 anos, Paulo Maluf era preso por formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro - Reprodução
Há 14 anos, Paulo Maluf era preso por formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro Imagem: Reprodução
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

27/03/2021 12h56

Como pudemos chegar a esse ponto? De onde saiu essa gente toda?

Para encontrar respostas a esse teatro de horror e absurdo que estamos vivendo há dois anos, precisamos recuar um pouco no tempo.

A extrema direita civil e militar cabocla, rústica, religiosa e ignara, sempre existiu no Brasil, desde a Proclamação da República, e chegou ao poder no golpe de 1964 na longa ditadura dos generais, depois de derrubar os líderes trabalhistas Getúlio, Jango e Brizola, os grandes inimigos de uma elite do atraso sempre derrotada nas urnas.

Depois de perder quatro eleições presidenciais seguidas para o Partido dos Trabalhadores, essa gente resolveu se unir novamente no golpe de 2016, para derrubar Dilma, prender Lula e eleger um capitão expulso das Forças Armadas, apoiado pelo Alto Comando do Exército do general Villas Boas, em 2018.

Na passagem da ditadura para a democracia, em 1985, após a Campanha das Diretas, que enxotou os militares, sobrara apenas um líder civil de 1964 para disputar a sucessão no Colégio Eleitoral: Paulo Maluf, ex-governador e prefeito nomeado de São Paulo, derrotado pela grande articulação política de Tancredo Neves, que morreu antes de tomar posse.

Maluf ainda seria candidato a presidente na primeira eleição direta pós-ditadura, em 1989, em que saiu vitorioso Fernando Collor de Mello, outro "filhote da ditadura", como o chamou Leonel Brizola, ex-governador de Alagoas, uma legítima expressão da elite do atraso.

Vamos começar a amarrar as pontas. Ao trocar a farda por um terno de político, Jair Bolsonaro passou por várias siglas, depois de se eleger vereador no Rio e deputado federal, mas fez a maior parte da sua carreira nos partidos criados por Paulo Maluf, um populista de direita que ficou conhecido como "rouba mas faz", alvo de um sem-número de processos de corrupção nas últimas décadas.

O Partido Progressista, a atual sigla do malufismo, é um dos esteios do Centrão, que reúne a fina flor do baixo clero fisiológico, de onde saiu Bolsonaro, e hoje é sua principal base de sustentação política.

Principal líder deste bloco, vem do PP também o atual presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, político alagoano como seu aliado Fernando Collor, cassado por corrupção em 1992, ao completar dois anos de mandato.

Com seu líder entrevado numa cadeira de rodas em sua monumental mansão no Jardim América, depois de passar uma rápida temporada na Papuda, o malufismo finalmente chegou agora ao poder com Bolsonaro e Lira, e hoje dá as cartas marcadas em Brasília.

Nada aconteceu por acaso. Como o capitão, Maluf também surfou no anti-petismo em São Paulo, prometendo colocar a polícia nas ruas porque "bandido bom é bandido morto" e se elegeu para vários mandatos de deputado federal a bordo deste bordão.

Em 30 anos na Câmara, criador e criatura nunca apresentaram um projeto útil ao país, não participaram dos grandes debates nacionais e se tornaram parlamentares medíocres, trabalhando em nichos de mercado, como as bancadas do boi, da bala e da bíblia.

Faço essa linha do tempo para mostrar que o bolsonarismo não foi criado por Bolsonaro. Ao contrário, é muito anterior a ele, e vivia enrustido nos armários, bueiros e becos da extrema direita, ocupados por gente ressentida, revanchista e com sede de sangue, que só encontrou voz e vez na campanha eleitoral de 2018.

Xenófobos, terraplanistas, homofóbicos, olavistas, preconceitusosos, supremacistas brancos, especuladores, militares de pijama e fraldão, milicianos, agroboys, marombados e viúvas da ditadura, todos se viram agora representados pelo presidente e levados para ocupar a Esplanada dos Ministérios em Brasília, com o alegre apoio do mercado e de setores da mídia grande.

Por isso, nada me surpreende que Fernando Collor de Mello tenha agora seu nome cogitado para o lugar do chanceler Ernesto Araújo, a bola da vez para ser defenestrado em Brasília.

Paulo Maluf só não está no time porque se encontra fora de combate.

Se por algum motivo de força maior, o capitão tiver que desocupar a cadeira antes do final do mandato, algo cada vez mais provável, à medida em que o cerco se fecha, uma coisa é certa: mesmo sem ele, o bolsonarismo sobreviverá, veio para ficar.

Com ele, uma parte do Brasil mostrou a sua cara, e ela não é bonita.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL