PUBLICIDADE
Topo

Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A semana em que o governo derreteu, e não há nada para colocar no lugar

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

18/04/2021 12h19

Eu não gostaria de estar no lugar de Jair Bolsonaro.

Para onde se olha no governo federal, são só crises, conflitos, ameaças, desencontros e derrotas no STF, que mandou instalar a CPI do Genocídio e devolveu os direitos políticos a Lula, o Centrão fazendo cara feia para o falido Posto Ipiranga, de olho no cofre e nos ministérios, a pandemia se alastrando fora de controle, pressões internas e externas contra a política ambiental, e o presidente ainda tendo que arrumar uma boquinha para o general Pazuello no Palácio do Planalto, para lhe garantir foro privilegiado nos tribunais.

A semana que passou foi certamente a mais terrível para o ex-capitão desde a sua posse, sem saber por onde começar a apagar os incêndios, com seu governo derretendo a olho nu, e sem ter mais a quem recorrer.

Essa história de "meu povo" e "meu exército" não assusta mais ninguém. Virou apenas mais um grito de desespero de quem não sabe como governar o país.

"Estou esperando a hora de agir, se o povo quiser, eu tomo decisões", prometeu a um grupo de devotos no "cercadinho" do Alvorada, em meio à tormenta que se abateu sobre seu governo.

E por que não tomou decisões até agora, já percorridos quase 28 meses de mandato?

Até hoje, não conseguiu apresentar um único programa de governo, nem nem mesmo sancionar o Orçamento de 2021, uma peça de ficção, assim como a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2022, que já que enviou ao Congresso.

Que Bolsonaro não nasceu para ser presidente, todos sabemos, não precisava ele dizer. Mas nem nos piores pesadelos poderíamos imaginar o tamanho da catástrofe que se desenhava no horizonte, já durante a campanha.eleitoral e na formação desse ministério frankenstein.

Mentiroso compulsivo, desmente hoje o que disse ontem, especialista em se agarrar a fios desencapados e atravessar a rua para pisar em cascas de bananas, o capitão ainda se segura na cadeira porque, reconheçamos, não há nada para colocar no lugar neste momento.

Nem impeachment resolve porque não temos um Itamar Franco à vista, como na época de Collor. E o vice, general Mourão, está mais para um Michel Temer de farda, que reza pela mesma cartilha golpista do capitão.

Qual é a credibilidade que Bolsonaro ainda tem para falar por três minutos no encontro sobre clima e meio ambiente promovido por Joe Biden com os principais líderes mundiais, depois de promover deliberadamente a maior destruição da Amazônia sob o comando da boiada de Ricardo Salles?

Sim, meus amigos, estamos literalmente no mato sem cachorro, no fundo do buraco, e o mato está acabando.

Até o dia da eleição do ano que vem, sempre uma esperança renovada, só nos restará continuar arrastando essa procissão fúnebre, sem rumo nem norte, vendo gente morrer aos milhares todo dia?

Mas falta uma eternidade até lá.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL