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Balaio do Kotscho

Bolsonaro humilha o Exército para salvar Pazuello

Pazuello discursa ao lado de Bolsonaro em ato no Rio no último dia 24 - Reprodução
Pazuello discursa ao lado de Bolsonaro em ato no Rio no último dia 24 Imagem: Reprodução
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/06/2021 18h00

Quando era tenente, Jair Bolsonaro planejava jogar bombas nos quartéis para reivindicar aumento nos soldos e, ao fim de um processo que terminou no Superior Tribunal Militar, foi promovido a capitão com a condição de largar a farda.

Três décadas depois, como presidente da República eleito com o apoio dos militares, o mesmo Bolsonaro submete o Exército a uma das mais vergonhosas humilhações da sua história..

Desde que levou o general Pazuello ao seu palanque no comício dos motoqueiros no Rio, numa clara transgressão às normas disciplinares do Exército, Bolsonaro vinha repetindo que não aceitaria qualquer punição ao ex-ministro da Saúde, demitido depois de deixar um rastro de quase 500 mil mortos na pandemia..

E fez mais: em claro desafio ao Comando do Exército, que abriu um procedimento disciplinar contra Pazuello, nomeou o general para um cargo no Palácio do Planalto, com salário de R$ 16 mil para somar ao soldo de general.

Em meio ao feriadão, sem aviso prévio, para não dar muito na vista, o Exército comandado pelo general Paulo Sérgio Nogueira, finalmente se rendeu.

Numa lacônica nota de poucas linhas, o país ficou sabendo que "o Comandante do Exército analisou e acolheu os argumentos apresentados por escrito e sustentados oralmente pelo referido oficial-general. Desta forma, não restou caracterizada a prática da transgressão disciplinar por parte do general Pazuello. Em consequência, arquivou-se o procedimento administrativo que havia sido instaurado".

Que beleza! A partir de agora, soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, majores, coronéis e todos os generais estão liberados para participar da campanha pela reeleição do capitão Bolsonaro, que já começou.

Desta forma, acabou o respeito à disciplina e à hierarquia da qual os militares tanto se orgulhavam. As tropas deixam de servir ao Estado brasileiro para agirem como braços armados do governo de turno, devendo obediência unicamente ao presidente da República, assim como fez Pazuello.

Nenhum outro governo civil após a redemocratização do país ousou desafiar desta forma as Forças Armadas.

Há apenas dois meses, o mesmo governo demitiu sumariamente o ministro da Defesa e os comandantes das três Armas, abrindo a maior crise militar deste século, que logo foi sufocada. As Forças Armadas se calaram e até hoje se mantiveram em obsequioso silêncio.

Com que autoridade o general Nogueira agora irá se impor aos seus comandados que subirem em palanques eleitorais sem a sua autorização?

Qualquer guarda da esquina vai se investir de poderes para impor a sua própria lei, como já aconteceu esta semana em Goiás, quando um PM prendeu um professor que ousou chamar Bolsonaro de genocida.

Bolsonaro poderá tranquilamente, daqui para a frente, continuar ameaçando os adversários e as instituições com o "meu Exército".

O que faltará ainda para o presidente se tornar um ditador, com plenos poderes sobre a vida e a morte de 212 milhões de cidadãos? As milícias de Rio das Pedras estão comemorando.

Com a absolvição sumária do general Pazuello, sem uma mísera advertência verbal que fosse, está oficialmente instaurada a anarquia militar, chancelada pelo comando do Exército.

Vida que segue.