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Balaio do Kotscho

General Braga Netto é o novo Pazuello do governo: 'Um manda, outro obedece"

Generais Braga Netto e Eduardo Pazuello: um Exército para chamar de seu - Carolina Antunes / Presidência
Generais Braga Netto e Eduardo Pazuello: um Exército para chamar de seu Imagem: Carolina Antunes / Presidência
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

22/07/2021 19h46

Qual foi a grande novidade? Por que tanta surpresa, tanto barulho sobre a ameaça terceirizada do general Braga Netto ao presidente da Câmara, Arthur Lira, condicionando a realização da eleição de 2022 à aprovação do voto impresso? Braga e Lira negaram tudo, mas ninguém acreditou.

Afinal, naquele mesmo dia, 8 de julho, Bolsonaro tinha feito a mesmíssima ameaça no cercadinho do Alvorada, em mais um ataque às urnas eletrônicas e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que provocou forte reação do presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso. Desta vez, fez-se silêncio nos tribunais. .

Desde que o ex-capitão Bolsonaro demitiu sumariamente o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e os três comandantes legalistas, para substituí-los por "militares de confiança" do presidente, as Forças Armadas passaram a servir a um governo golpista, não mais ao Estado brasileiro.

Não é só mais uma ameaça: o novo golpe contra as instituições já está em pleno andamento, para reeleger Bolsonaro na marra, ou melar as eleições presidenciais.

Essa novela do voto impresso, como se fosse o grande problema brasileiro, é só mais uma gazua para provocar o caos, tantas vezes anunciado pelo presidente

Com Braga Netto assumindo o Ministério da Defesa (defesa de quem?), passou a vigorar a máxima da sabujice do general Eduardo Pazuello:

"Simples assim: um manda, outro obedece", justificou o ex-ministro da Saúde, ao ser desautorizado publicamente pelo presidente na compra de vacinas do Instituto Butantan.

Comandante supremo das Forças Armadas, ele não se cansa de lembrar, Bolsonaro não admite ser contestado por ninguém, nem pelos outros poderes constituídos, como sabem muito bem os generais e civis por ele demitidos com humilhação.

Nós já tivemos militares nacionalistas ou entreguistas, legalistas ou golpistas, mas é a primeira vez que somos comandados por militares bolsonaristas em estado puro. Um bom exemplo disso é o general Luiz Eduardo Ramos, defenestrado da Casa Civil sem aviso prévio, que logo em seguida foi ver o jogo do Flamengo, junto com o presidente, e publicou uma foto nas suas redes sociais.

Para sermos justos, vale lembrar que o bolsonarismo já existia na nossa sociedade antes do ex-capitão assumir o governo, quando o general Braga Netto foi nomeado interventor federal na Segurança Pública no Rio de Janeiro durante o governo de Michel Temer, dando início à progressiva militarização do poder, sob as bênçãos do então comandante do Exército, general Villas Boas. Até então, o ministro da Defesa era um civil.

Coube a Bolsonaro apenas abrir as portas dos armários, levantar as tampas dos bueiros e dar voz a uma força subterrânea, até então desconhecida na nossa sociedade, que brotou de templos, fóruns e quartéis, e se materializou nas milícias urbanas e rurais, em conluio com amplos setores das polícias militares.

Fazem parte desse pacote das trevas a liberação geral de armas e munições, a demora na compra de vacinas e a distribuição de cloroquina, o estouro da boiada na Amazônia, a invasão de terras indígenas e a destruição da floresta, os ataques à ciência, à cultura e à soberania nacional.

Como se não fizesse parte dessa ofensiva de bárbaros, o vice presidente da República, general Hamilton Mourão, fez cara de ofendido quando perguntado hoje pelos repórteres sobre as ameaças às eleições marcadas para outubro de 2022.

"Claro que vamos ter eleições! Nós não somos uma república de banana". Há controvérsias...

Quase na mesma hora, o presidente Bolsonaro voltou ao seu assunto preferido do voto impresso "para impedir fraudes" que nunca aconteceram:

"Não posso mais aceitar apuração feita por meia dúzia de pessoas de forma secreta".

De onde ele tirou isso? E se não aceitar, o que acontece? Chama o Braga Netto, seu novo Pazuello?

Vida que segue.