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Balaio do Kotscho

Palanque eleitoral de Bolsonaro: Brasil nunca passou tanta vergonha na ONU

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/09/2021 16h08

Como se estivesse em cima de um carro de som na avenida Paulista, cercado por devotos, na live das quintas-feiras ou no "cercadinho" do Alvorada, Bolsonaro conseguiu se superar na própria mitomania, nesta terça-feira, em seu delirante discurso de 12 minutos no púlpito da ONU: contou tantas mentiras, que as pessoas ali já não sabiam de que país ele estava falando.

Vendeu para o mundo um país onde não há corrupção, a credibilidade internacional foi resgatada, os direitos dos índios são respeitados, a Amazônia é preservada, o "perigo comunista", que nunca existiu, foi destruído, milhões de pessoas vão às ruas para defender seu governo e o país não para de crescer, gerar empregos e construir ferrovias.

Logo no início, ele avisou que iria falar umas "verdades" para contrapor a realidade, oposta à mostrada por toda a mídia internacional, e desandou a citar números falsos, um festival de fake news em que nem seus filhos acreditam mais.

Quem Bolsonaro pensa que ainda engana?

Se foi para ganhar votos no Brasil, onde anda por baixo nas pesquisas, perdeu seu tempo e o nosso dinheiro, que paga a farra da sua exótica comitiva em Nova York.

Se foi para conquistar novos investidores, só assustou mais ainda o mercado.

Se foi para melhorar a imagem do Brasil no exterior, foi um tiro na testa.

Em vez de tratar das grandes questões mundiais, os efeitos da pandemia e as mudanças climáticas, como fez Joe Biden, o capitão apresentou uma prestação de contas do seu governo para o público interno, e falou até da privatização da Cedae, a companhia de águas do Rio de Janeiro, que um dia ele ameaçou explodir quando ainda era tenente.

Menos mal que não fez novas ameaças à China comunista, nosso maior parceiro comercial, e não promoveu a defesa do governo de seu amigo Trump. Poderia ter sido pior.

Ainda bem que ele não consegue falar por mais de 12 minutos, mesmo lendo com dificuldade um discurso que deve ter sido escrito por Eduardo Bolsonaro, o filho que ele queria nomear embaixador nos Estados Unidos, um líder da extrema-direita mundial, discípulo do astrólogo Olavo de Carvalho e de Steve Bannon.

Em compensação, voltou a fazer a defesa da imunidade de rebanho e do "tratamento inicial" com o kit-covid e combateu o "passaporte da vacina", já adotado por todos os países civilizados.

Único chefe de Estado não vacinado na Assembleia Geral da ONU, um troféu de que muito se orgulha, foi obrigado a jantar pizza na rua e almoçar num "puxadinho" na calçada, cercado por panos pretos, montado especialmente para ele na calçada por uma churrascaria brasileira, onde pediu uma picanha bem passada, suprema heresia para os gaúchos.

Em apenas 48 horas inesquecíveis na cidade, teve breves encontros com apenas dois chefes de Estado, do Reino Unido e da Polônia, e não se sabe o que fez no resto do tempo livre.

Xingado e vaiado por onde passava, bateu boca com manifestantes na rua e gravou um vídeo em frente à casa da embaixada do Brasil na ONU.

Numa relação custo-benefício, o que ganhamos, afinal, com esta breve excursão do bolsonarismo raiz a Nova York, um desfile de personagens grotescos que nos fizeram passar vergonha para o mundo na vitrine da ONU?

A melhor imagem deste vexame planetário foi a do médico Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, em pé numa van, mostrando o dedo médio para quem estava protestando na calçada. Nem Pazzuelo, o obediente, faria melhor para agradar o chefe.

Não sei o que seria menos pior: proibir esse pessoal de voltar para o Brasil ou impedi-lo de sair daqui para mostrar nossas mazelas lá fora?

Quem te viu e quem te vê, Brasil, o que fizeram de ti?

Ainda outro dia, o ministro da Cultura do Brasil chamava-se Gilberto Gil, que cantou para a plateia na ONU, acompanhado por Kofi Annan, então secretário-geral, batucando no bongo.

Saudades do Brasil, uma saudade que vem nos matando de tristeza e vergonha.

Vida que segue.

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