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Balaio do Kotscho

Brasileiro fica sem pão e sem circo, não tem mais motociatas para Bolsonaro

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

04/10/2021 14h55

Faz quase um mês que o presidente ainda em exercício sumiu das manchetes do noticiário político, que só se preocupou com ele nos dias daquele vexame na ONU.

Neste final de semana de protestos contra o governo, não se ouviu um pio vindo do Palácio da Alvorada, onde o presidente mantém obsequioso silêncio, desde que mandou aquela cartinha de amor da grife Michel Temer para o ministro Alexandre de Moraes.

Já repararam que não temos mais o show diário do presidente pregando no "cercadinho" aos devotos, que também sumiram de cena, nem o barulho das motociatas e das ameaças ao Supremo Tribunal Federal, e pararam as "entrevistas" para a Jovem Pan e rádios do interior? Bolsonaro está na muda. Vivemos agora na santa paz dos cemitérios, onde jazem quase 600 mil vítimas.

A pretexto de comemorar os 1000 dias de governo, o ex-capitão passou a última semana fora de Brasília, viajando pelo país todo para retomar a campanha à reeleição, o seu principal projeto de governo.

Reformas, precatórios, prorrogação do auxílio emergencial ou valor do novo bolsa família, só tem notícia enguiçada. Está tudo empacado no Congresso, que só aprova o que for de seu próprio interesse para as próximas eleições, e no Ministério da Economia, agora mais preocupado em explicar a offshore de Paulo Guedes, outro que sumiu.

Afastado o fantasma do impeachment, com o providencial movimento de recuo das tropas bolsonaristas, após o 7 de Setembro, e com a baixa adesão às manifestações de sábado, que não fizeram nem cócegas na base aliada de Arthur Lira, ficamos sem pão e sem circo, nadando em circulo à procura de uma boia para chegarmos vivos até a eleição do ano que vem.

Procurei, mas não achei, nada sobre a agenda do presidente para esta semana, algo que possa despertar a atenção do público e da crítica.

Apenas são aguardados novos depoimentos na CPI da Pandemia sobre os mesmos assuntos da semana passada, nada que possa mudar o relatório final, que já está pronto, mas só deve ser divulgado no próximo dia 20.

No Supremo Tribunal Federal, o principal assunto em pauta é a ação que poderá liberar os showmícios na campanha eleitoral do ano que vem, com grandes chances de ser aprovada, segundo a Folha.

Teremos então uma disputa paralela entre os artistas da MPB, majoritariamente de esquerda, e os cantores sertanejos de Bolsonaro, algo que, se não mata a fome, pelo menos oferecerá um pouco de diversão no conflagrado cenário eleitoral.

Enquanto isso, no país da vida real dos brasileiros, as maiores preocupações são saúde, inflação e emprego, nesta ordem, segundo levantamento feito pela empresa de inteligência digital AP Exata, a pedido da revista Veja, que mapeou 2,3 milhões de publicações no Twitter, de janeiro a agosto deste ano.

Isso já podia ser visto a olho nu nos cartazes e faixas levados pelos manifestantes da oposição, que trocaram o pedido de impeachment pelas palavras de ordem da pauta econômica: "Está caro, a culpa é do Bolsonaro".

Com o avanço da vacinação, o custo de vida passou a ser o novo problema dos brasileiros e pode ser o principal tema de campanha em 2022.

Sem poder mais bater nos supremos ministros, Bolsonaro mudou de estratégia e voltou sua mira para o ex-presidente Lula, candidato que lidera as pesquisas presidenciais por larga margem.

"Quanto mais arma, menos violência. O Lula acabou de dizer que ele vai desarmar o povo. Inclusive, a esquerda fala que a gente não come arma, come feijão. Quando alguém invadir a tua casa, dê tiro de feijão", disparou num dos seus comícios da semana passada. A comparação chega a ser pueril.

Mas, como o ex-presidente está evitando bola dividida, e não lhe deu resposta, não houve a polarização esperada.

Esse tema ligado à pauta dos costumes poderá estar pacificado antes da campanha, porque há duas semanas o STF voltou a julgar a constitucionalidade dos decretos do governo que facilitavam o acesso a armas de fogo.

O placar estava 3 a 0 contra os decretos do ex-capitão, quando o ministro Nunes Marques, sempre ele, pediu vista do processo e suspendeu o julgamento.

Outra má notícia do levantamento da AP Exata é o esvaziamento da pauta de costumes que Bolsonaro usa para animar sua militância. Não é mais uma prioridade dos eleitores.

Sem poder, por razões óbvias, empunhar a bandeira do combate à corrupção, que o ex-ministro Sergio Moro levou com ele para os Estados Unidos, só restará ao presidente acenar novamente com o fantasma do comunismo, que não assusta mais ninguém com pelo menos dois neurônios e um mínimo de informação.

Fora isso, resta ao ex-capitão começar a tratar de governar para tornar menos cruel a vida dos brasileiros, que continuam sem arrumar emprego, e garimpam ossos para espantar a fome. Mas isso é problema do Posto Ipiranga, onde falta combustível para os planos eleitorais do presidente.

O novo figurino "Jairzinho Paz e Amor" não pegou nada bem no seu eleitorado mais belicoso, como mostram todas as pesquisas.

É o que temos para o momento. Como diria Galvão Bueno, lembrando um jogo Brasil e Holanda, depois da expulsão de Felipe Melo, a situação já esteve mais favorável para Jair Bolsonaro.

Vida que segue.