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Balaio do Kotscho

Pesquisa Ipespe: Moro e Ciro empatam, PSDB vira nanico e Lula joga parado

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

26/11/2021 14h14

Prévias "pausadas" do PSDB, Bolsonaro enfim no PL, Moro no Podemos, sabatina do terrivelmente evangélico no Senado, Lula e a ditadura na Nicarágua, o vai-não-vai do auxílio Brasil, PEC dos Precatórios: com esse cortejo de notícias enguiçadas, nada nesta movimentada semana foi capaz de mexer com o humor dos eleitores.

É como se fossem duas realidades paralelas: a antecipada campanha eleitoral de 2022 e os fatos e factoides do dia a dia da política. Parece que uma não interfere na outra.

A nova rodada do Ipespe, a primeira após o lançamento da candidatura do ex-juiz Sergio Moro, divulgada nesta sexta-feira, traz poucas novidades.

O ex-presidente Lula continua liderando com folga todos os cenários de primeiro e segundo turnos e aumentou para 17 pontos sua vantagem sobre Bolsonaro: 42% a 25%.

Bolsonaro caiu 3 pontos, Lula subiu 1 e o PSDB, com João Doria ou Eduardo Leite, virou nanico: não passa de 2% nos dois cenários.

Moro, com 11%, subiu 3 pontos e está tecnicamente empatado com Ciro Gomes (9%).

A 10 meses das eleições, à medida em que outros pré-candidatos desistem, ou não passam de 1%, com a terceira via agora ocupada pelo ex-juiz e Ciro correndo por fora, sem sair do lugar, a disputa se resume em saber quem irá para o segundo turno com o ex-presidente Lula.

No momento, a curva de Moro sobe, enquanto a de Bolsonaro desce, na mesma proporção: os 3 pontos perdidos pelo presidente foram ganhos pelo ex-juiz e ex-ministro de Bolsonaro, que disputam o mesmo eleitorado de direita e extrema-direita.

As viúvas da Lava Jato na mídia já não conseguem esconder sua euforia com a candidatura de Moro, que ganha cada vez mais generosos espaços em todas as mídias, em especial nos canais de notícias na TV.

Só concorre com Moro nos noticiários a lambança nas prévias do PSDB, que não tem data para acabar. Qualquer que seja o resultado, o partido sairá irremediavelmente rachado, com penas voando para todo lado. Na fila do pão, isso não muda nada, nem é assunto.

Não dá para falar numa polarização de extremos. Ao contrário, Lula procura se aproximar cada vez mais da centro direita, na medida em que negocia alianças com políticos como o ex-governador Geraldo Alckmin, um quase ex-tucano, que ocupava essa faixa do eleitorado, antes da autocombustão.

Se não for Alckmin, pode ser outro com o mesmo perfil moderado, para acalmar os temores da área militar e do mercado, que agora balançam entre Bolsonaro e Moro.

Depois do sucesso da sua turnê pelas democracias europeias, Lula já planeja outra aos Estados Unidos, onde pretende encontrar o presidente Joe Biden, sem pressa para iniciar suas caravanas pelo Brasil.

Calejado por cinco campanhas presidenciais, Lula agora joga mais parado, sem entrar em bola dividida, enquanto o pau come entre seus adversários mais diretos.

O perigo está nas cascas de banana das entrevistas, em que o ex-presidente faz questão de pisar, e no fogo amigo dos petistas mais radicais. Basta evitar declarações polêmicas sobre assuntos como ditaduras de esquerda e regulação de mídia, que não estão entre as maiores preocupações dos brasileiros.

O que o eleitorado quer saber em 2022 é o que vai ser feito para conter a inflação, criar empregos, devolver a paz para quem quer estudar e trabalhar, ter um lugar para morar, garantir três refeições por dia a todos e um churrasquinho no fim de semana, nada muito diferente do que foi feito na campanha de 2002.

De lá para cá, em especial depois de 2016, tudo piorou muito, vivemos hoje a mais grave crise da nossa história, mas os desafios básicos da sobrevivência continuam os mesmos.

Tanto é que Bolsonaro agora joga todas as fichas que lhe restaram na implantação do Auxílio Brasil, a nova versão do Bolsa Família. Assim como aconteceu com o Plano Real, em 1994, ninguém pode ser contra esse programa, com mais de 20 milhões de pessoas passando fome.

Difícil é descobrir qual será o projeto de Sergio Moro para o país, além de chegar ao poder para montar um novo " tribunal da corrupção", como ele já prometeu, e manter a política econômica do atual governo, para tudo ficar como está.

É nesse campo que a eleição será decidida. Lula e Bolsonaro terão seus governos julgados, mas Moro é uma página em branco à espera de um autor.

Ciro tem há tempos um projeto nacional desenvolvimentista, mas anda calado, depois das últimos mexidas no tabuleiro eleitoral, ainda procurando um discurso que o povo entenda.

O resto já está fora do jogo, em que nem entrou até agora.

Para saber mais, após tantas pesquisas, precisamos esperar a próxima rodada do Datafolha.

Vida que recomeça.