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Balaio do Kotscho

Governo, Congresso e Forças Armadas: a esbórnia do bloco "Unidos na Mamata"

Presidente Jair Bolsonaro (PL) dança funk em lancha no litoral de São Paulo - Reprodução/Twitter (@AragaoMosart)
Presidente Jair Bolsonaro (PL) dança funk em lancha no litoral de São Paulo Imagem: Reprodução/Twitter (@AragaoMosart)
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/12/2021 13h50

No escurinho do apagar das luzes de 2021, com a aprovação do Orçamento de 2022, o Congresso Nacional consumou esta semana, sem que a nação espoliada se desse conta, o mais descarado assalto aos cofres públicos, para garantir e ampliar privilégios da classe política, dos militares e dos policiais federais.

Essa foi a chave de ouro da grande "renovação para acabar com a mamata" prometida pelos vencedores da eleição de 2018, que tiraram dos armários o Brasil do velho patrimonialismo da República Corporativa civil e militar e destruíram todas as conquistas sociais das últimas décadas.

Quem me chamou a atenção para a divisão do butim deste verdadeiro arrastão no Tesouro Nacional foi o velho companheiro José Casado, colunista da Veja, no artigo "Anarquia orçamentária revela perda de rumo do governo e do Congresso".

Mais do que perda de rumo, o que Casado descreve em sua coluna é a falta de vergonha na cara de uma casta que virou as costas para o país, onde 50 milhões de pessoas estão em insegurança alimentar e outro tanto não tem trabalho fixo, multiplicando o número de famílias que dormem nas ruas e formam filas em busca de um prato de comida.

Quando já estavam dando os trabalhos por findos, no final da noite da última sexta-feira, alguém avisou que haviam chegado novos pedidos do presidente Jair Bolsonaro.

"Um deles era para aumentar em R$ 343 milhões os gastos militares, com verbas que até então estavam destinadas ao financiamento do seguro-desemprego e da assistência social. É um caso simbólico da anarquia orçamentária num país em que 66 milhões de pessoas, um terço da população, dependeram do auxílio do Estado para sobreviver na crise pandêmica", escreve o colunista.

A verba suplementar se soma aos R$ 8,8 bilhões previstos para investimento em programas militares, valor que é 87% maior do que o destinado à Saúde e 30% acima do previsto para obras em infraestrutura.

Ao longo dos últimos três anos, tivemos uma completa inversão de prioridades. Enquanto os militares ficavam de fora da Reforma da Previdência e recebiam os maiores aumentos da sua história, que irão até 2023, o Orçamento destinava para 2022 apenas uma verba simbólica de R$ 79 mil para programas de reforma agrária.

Segundo o levantamento de José Casado, haverá mais dinheiro para a Aeronáutica gastar em aeronaves de combate (R$ 1,2 bilhão) do que para programas de saneamento básico (1 bilhão), num país onde 35 milhões moram em casas sem água tratada e mais de 100 milhões não têm rede de esgoto.

Mas não faltará dinheiro para os partidos e a campanha eleitoral do próximo ano, que consumirão mais de R$ 6 bilhões, um aumento de 57% em relação da 2018.

Para as emendas do relator, aquelas do "orçamento secreto", foram reservados mais de R$ 16 bilhões, um caminhão de dinheiro sem nenhum controle, que ninguém sabe para quem vai nem onde será aplicado.

Só nesses dois itens destinados à classe política, irá a metade do total de investimentos previstos para 2022 (R$ 44 bilhões), o menor dos últimos 50 anos, descontada a inflação.

Em compensação, Bolsonaro mandou reservar mais R$ 1,7 bilhão para fazer um agrado aos 45 mil funcionários da Polícia Federal, o que provocou uma debandada em outros setores da máquina pública. Só na Receita Federal, mais de 500 chefes de unidades já entregaram os cargos e 138 pesquisadores deixaram a Capes por falta de condições de trabalho.

Na sua anticampanha à reeleição, para beneficiar uma minoria armada, o capitão reformado conseguiu desagradar a mais de 1 milhão de servidores públicos que estão sem reajuste desde 2019, seu primeiro ano de governo.

Com o país à matroca, Bolsonaro e o falido Posto Ipiranga de Paulo Guedes, ex-ministro da Economia ainda no cargo, já saíram de férias.

Cada um que se vire. O Natal dos políticos, militares e policiais está garantido, todos já ensaiando para o próximo Carnaval no bloco "Unidos da Mamata".

Agora dá para entender do que tanto Bolsonaro ri nos seus intermináveis passeios pelo litoral paulista, farreando a pregas soltas, cercado de militares e seguranças.

2021 chega ao fim sem perigo de impeachment à vista. A impunidade do presidente já está precificada no Orçamento de 2022.

Vida que recomeça.