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Balaio do Kotscho

Réveillon em Varsóvia, 1978: no meio da festa comunista, fez-se silêncio

Varsóvia, na Polônia: no país do papa João Paulo 2º, dirigentes do Partido Comunista paravam a festa para rezar no Ano Novo - Getty Images/iStockphoto
Varsóvia, na Polônia: no país do papa João Paulo 2º, dirigentes do Partido Comunista paravam a festa para rezar no Ano Novo Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

31/12/2021 16h48

Sei que hoje é um dia de jornalista fazer retrospectivas e previsões, mas não vale relembrar o que aconteceu neste trágico e interminável ano de 2021, para não sofrer novamente, nem dá para fazer qualquer previsão séria mirando 2022 neste país onde até o passado é imprevisível. Seja o que Deus quiser.

Por isso, prefiro nesta última coluna do ano lembrar aqui de um Réveillon inesquecível que passei com a família em Varsóvia, para onde o Jornal do Brasil me mandou, na passagem de 1977 para 1978, quando o Brasil ainda vivia na ditadura militar e a Polônia sob o regime comunista.

Minha doce e implacável amiga Dorrit Harazim, chefe dos correspondentes internacionais do JB, como se fosse a coisa mais natural do mundo, me comunicou que eu deveria viajar no dia seguinte a Varsóvia para cobrir a viagem de Jimmy Carter, a primeira de um presidente americano à Polônia no pós-Segunda Guerra.

Também seria minha primeira viagem a um país comunista sobre o qual eu pouco sabia, com a agravante de não dominar o idioma de Shakespeare. Eu só sabia falar alemão, uma língua que os poloneses abominam por bons motivos Na hora zero do fim da Segunda Guerra, 86% da cidade de Varsóvia fora varrida do mapa pelas tropas alemãs, que mataram seis milhões de poloneses.

Eu estava havia menos de três meses como correspondente na então Alemanha Ocidental, para onde fui com a mulher, a Mara, e as filhas pequenas, de um e quatro anos.

Tentei explicar que não gostaria de deixar a família sozinha, justamente no Ano-Novo, num país estranho, de língua difícil, sem conhecer ninguém.

Sem problemas: o jornal autorizou a ida de todos nós e bancou as despesas. Eram outros tempos...

Quem não entendeu nada foram as três centenas de jornalistas americanos que lotaram o Europejski Hotel, o mesmo onde nos hospedamos, no quarto 273, na praça central do que sobrou do antigo centro de Varsóvia.

"O que o maluco desse brasileiro, correspondente na Alemanha, está fazendo aqui, ainda mais acompanhado da mulher e das filhas?", perguntavam-se.

Logo, claro, viramos figurinhas carimbadas naquele lugar. No dia em que Mariana, a filha mais velha, hoje veterana jornalista, se perdeu nas enormes escadarias do hotel, o que não faltou foi jornalista americano me ajudando a procurá-la para a caçula Carolina parar de chamar a irmã.

Pior foi no dia seguinte, quando resolvemos dar um passeio pelas ruas cobertas de neve, numa temperatura de uns bons graus negativos. Mariana não parava de chorar. Demoramos a descobrir a razão: a sola da sua botinha tinha arrebentado, entrou neve, o pé congelou. Voltamos correndo para o hotel, e eu ainda fiz a besteira de pôr a menina debaixo de água pelando, o que aumentou sua dor. E ainda faltava escrever a matéria do dia...

Um velho jornalista polonês, que falava alemão e inglês, me ajudou a entender o comunicado oficial assinado por Carter e o primeiro-secretário do PC, Edward Gierek, o chefe do governo. Graças a esse colega, mandei alguns quilômetros de matérias por telex para o JB durante os três dias da visita, dando a impressão que eu era um especialista em relações internacionais.

Cinzenta e fria, Varsóvia tinha na época 1,5 milhão de habitantes, trânsito confuso apesar dos poucos carros nas ruas, ônibus superlotados, filas nas lojas, bondes velhos e uma profunda tristeza estampada no rosto dos transeuntes, embora a guerra tivesse terminado há mais de 30 anos. Prédios foram reconstruídos, mas as marcas da guerra ficaram _ nas ruínas, nos monumentos e na memória das pessoas.

Como o salão de festas do hotel fora fechado para as autoridades, o jeito foi improvisar uma comemoração no quarto mesmo, com alguns balões e enfeites providenciados pelas minhas mulheres. A ceia fui eu que montei com belos presuntos e queijos, além de caviar russo e blinis, que lá custavam barato.

Às onze da noite, a orquestra atacou, e nós ouvíamos tudo, era como se estivéssemos no salão. Mas, à meia-noite, fez-se silencio _ um silêncio assustador em meio a uma noite de festa. Era hora de rezar por boas aventuranças no ano que estava começando.

No final daquele mesmo ano, fui entender o fervor religioso daqueles dirigentes comunistas, quando foi eleito Papa o cardeal polonês Karol Wojtyla, o popular João Paulo 2º, que por longos anos comandaria o Vaticano. A Polônia, como o Brasil, era um país profundamente católico.

Meia hora depois, a festa recomeçou.

Em tempo: esta história está contada no meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto _ Uma Vida de Repórter" (Companhia das Letras, 2006).

Tudo faz muito tempo...

Que venha 2022, com muita força, esperança e fé! Feliz Ano-Novo!

Vida que segue _ e recomeça.