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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O papel dos militares: omitem-se onde devem atuar e metem-se onde não devem

Os militares se aproximaram da candidatura de Bolsonaro. Agora, avaliam movimento de distanciamento. A imagem das Forças Armadas pode sair abalada - Fernando Frazão/Agência Brasil
Os militares se aproximaram da candidatura de Bolsonaro. Agora, avaliam movimento de distanciamento. A imagem das Forças Armadas pode sair abalada Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

06/08/2022 14h43

"O que se espera é que o próximo presidente da República coloque as Forças Armadas para trabalhar e acabe com esse ócio destrutivo" (João Perles, Pereira Barreto, SP, no Painel do Leitor da Folha de 5/8).

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Desde que me tornei leitor de jornal de papel, ainda menino, tenho o hábito de ler as cartas enviadas à redação. É uma boa maneira de medir a temperatura da opinião pública, saber o que mais preocupa os leitores, o que estão pensando sobre as notícias que nós produzimos.

Nas últimas semanas, me chamou a atenção a quantidade de mensagens com críticas às Forças Armadas, o que não acontecia antes do advento do governo de Jair Bolsonaro.

Na edição da Folha da última sexta-feira, das 17 cartas publicadas, a maioria (9) continha queixas sobre ações ou omissões dos militares. Nenhuma foi dirigida ao presidente.

Entre os temas tratados nestas cartas enviadas de diferentes pontos do país, estão a proteção da Amazônia, a compra de equipamento para acessar celulares e a participação das Forças Armadas no processo eleitoral.

Incompetentes

"Militares ignoram pedido da PF por ajuda em retirada de invasores de terra indígena" (Ambiente, 4/8). Naquilo que lhes compete são completamente incompetentes. Mas querem ensinar os outros a fazer eleições". (Marco Medeiros, Rio Grande, RS)

"Inúteis esses militares. E com a incompetência de sempre". (Celso Onofre, Ubatuba, SP)

"É esse o "patriotismo" das nossas "gloriosas" Forças Armadas? Estão sempre de prontidão para defender os interesses dos poderosos. Alguma surpresa? É da sua tradição". (Newton Penna, Rio de Janeiro, RJ).

"Atender a esse pedido seria desvio de sua função. As forças Armadas servem somente para pintar postes e futricar urnas eletrônicas (João Carlos Silva, Atibaia, SP)

Bisbilhotando

"Exército compra equipamento para acessar celulares e silencia sobre motivos" (Política, 4/8). Yes, we scan!". (Said Ahmed, São Paulo, SP)

"Na ditadura declarada (1964/1985) ainda não havia essa sofisticação tecnológica de espionagem e mesmo assim foi aquilo que foi. Como será agora? Terror". José Soares (São Paulo, SP)

"Se usarem essa tecnologia com a mesma eficiência com que vigiam nossas fronteiras e controlam a entrada de drogas, armas e explosivos, não há com o que se preocupar". (Terezinha Rachid O. da Fonseca, Bom Jardim de Minas, MG)

"Se o Exército silencia sobre os motivos da compra, por que o TSE tem que ficar dando informações sobre as urnas eletrônicas para esses elementos? Aliás, para que serve o Exército Brasileiro, que recebe dinheiro de nossos impostos e não devolve nenhum benefício à nação? (Edgard Reymann, Peruíbe, SP)

Como se vê, o povo anda bravo com os militares. Omitem-se onde deveriam atuar. E metem-se onde não devem.

Em plena campanha eleitoral, nenhum candidato até agora se dispôs a debater um novo papel para as Forças Armadas em tempos de paz.

Vida que segue.

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