PUBLICIDADE
Topo

Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Terceira via é a maior fake news de 2022

Ciro Gomes, Sergio Moro e João Doria - Evaristo Sá/AFP;  Marcos Oliveira/Agência Senado e Flavio Corvello/Futura Press/Estadão Conteúdo
Ciro Gomes, Sergio Moro e João Doria Imagem: Evaristo Sá/AFP; Marcos Oliveira/Agência Senado e Flavio Corvello/Futura Press/Estadão Conteúdo
Conteúdo exclusivo para assinantes
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

12/05/2022 04h00

Diz a lenda que uma jovem indígena de nome Naiá se apaixonou pela Lua. Ouviu os mais velhos da aldeia contarem que a Lua tinha o hábito de transformar garotas em estrelas a fim de passar a madrugada dançando com elas no céu e decidiu que seria escolhida.

Nas noites de lua, Naiá seguia para a beira do rio e punha-se a esperar. Torcia, pedia, fazia as orações dos indígenas, oferecia-se. E a Lua, perdida num mundo lírico e confuso, nem sequer tomava conhecimento.

Até que, certa feita, Naiá viu a Lua a se banhar no rio e, eufórica, saltou em sua direção. Seus dedos nada tocaram. Não era a Lua que estava ali, apenas seu reflexo.

A jovem, enfraquecida após tamanha espera, noites a fio sem dormir e quase sem se alimentar, acabou se afogando naquelas águas. Só mais tarde, diante da tragédia consumada, a Lua notou a garota e, penalizada, a transformou em vitória-régia, a planta cuja flor, branca e perfumada, só abre à noite.

Tem uma turma de analistas políticos no Brasil que age como se fosse Naiá, à espera de uma Lua que nunca chega. Vão todos morrer afogados, e correm o risco de jamais virarem vitória-régia.

Naiá, a Lua e o eleitor isentão

Naiá é o eleitor isentão, o jovem "farialimer" que não entendeu nada, o operador da bolsa que teme se queimar com os clientes, o youtuber sustentado por um modelo de negócios que o impede de se posicionar, o veículo de comunicação que regurgita a lenga-lenga da escolha muito difícil.

A Lua, por sua vez, é a terceira via, essa entidade messiânica, limpinha e cheirosa, que sabe usar os talheres e pronunciar corretamente a palavra "debacle". Ela não veste vermelho, mas também não elogia a tortura. Torce o nariz para o MST, mas não nega vacina.

Dizem que anda por aí, à espreita, e que vai aparecer quando chegar a hora certa. Até hoje, ninguém a viu. Uma lenda brasileira, como o boitatá e o curupira, a mula sem cabeça e o mapinguari. Seus discípulos a aguardam como quem pendura meia na lareira e põe o disco da Simone para esperar o Papai Noel. "Então é Natal..."

O problema é que essa tal terceira via, justa e benfazeja, polida e bem-intencionada, que não é de direita nem de esquerda, ela não existe. Nunca existiu nem vai existir. Não em 2022.

Sua mítica está fundamentada em premissas que ruíram antes mesmo de se estruturar.

A lenda da terceira via

Um primeiro equívoco usual em quem aposta na terceira via é conferir certa unicidade ao campo ocupado pelos nem-nem, aqueles eleitores que se opõem a Lula e a Bolsonaro. Ora, acreditar que Ciro e Moro, Doria e Tebet, MDB e PSDB, MBL e PSTU, são tudo a mesma coisa é no mínimo ingenuidade. Ou má-fé.

Sob este ponto de vista, poderíamos pensar que a terceira via são várias: a terceira, a quarta, a quinta. Insistir na lenda da terceira via é forçar um bipartidarismo que não tem a ver com a história do Brasil e que pode ser perigoso no presente, sobretudo por equiparar Lula e Bolsonaro como forças antagônicas equivalentes ou simétricas.

Normalmente, entende-se a terceira via como uma força de centro, capaz de evitar um governo de esquerda (Lula) ou de direita (Bolsonaro). Há perversão nessa falsa simetria, colocada como armadilha em terreno pantanoso. De modo disfarçado, ela vende a ilusão de que há um candidato de esquerda tão extremado quanto o candidato de extrema direita. Que ambos os governos foram igualmente ruins e que ambos demonstram desrespeito à democracia, o que não é verdade.

A terceira via, que nunca existiu de fato, parece fadada a se desidratar ainda mais.

Os números da desidratação

Os resultados das últimas pesquisas de intenção de votos são reflexos dessa lorota. Vejamos as mais recentes, divulgadas na semana em que escrevo esta coluna.

Segundo sondagem feita pelo Instituto MDA para a CNT e divulgada na terça-feira (10), o ex-presidente Lula receberia 40,6% dos votos e Jair Bolsonaro teria 32% se a eleição fosse hoje. Já a pesquisa da Quaest para a Genial Investimentos divulgada na quarta (11) coloca Lula com 46% e Bolsonaro com 29%.

Um terceiro levantamento, publicado também na quarta-feira (15) pelo PoderData, vinculado ao site Poder 360, cravou 42% para Lula contra 35% para Bolsonaro.

Juntos, os demais candidatos somam entre 15 e 16 pontos percentuais nas três pesquisas. O mais bem posicionado tem 7 pontos. É pouco. Não há registro de recuperação semelhante no histórico de eleições presidenciais no Brasil desde a redemocratização.

Desde 1989, nenhum presidente eleito tinha menos de 17% das intenções de votos em abril, conforme reportagem publicada no UOL dois anos atrás.

Collor, em 1989, e Bolsonaro, em 2018, tinham 17 pontos em abril e, tanto um quanto o outro, valeram-se de expedientes nada ortodoxos para decolar. Deu no que deu.

'Aquela que foi sem nunca ter sido"

viúva, porcina - Divulgação/TVGlobo - Divulgação/TVGlobo
Regina Duarte como Viúva Porcina, em "Roque Santeiro" (1985)
Imagem: Divulgação/TVGlobo

A mais recente rodada de pesquisas de intenção de votos permite comparar a terceira via à Viúva Porcina.

Na saudosa trama de Dias Gomes, a personagem interpretada por Regina Duarte apresenta-se como viúva do suposto herói de guerra Roque Santeiro e passa a usufruir das honras e vantagens que a condição lhe descortinava sem nunca ter se casado ou amasiado com ele. Ficaria conhecida como "aquela que foi sem nunca ter sido".

Também a terceira via vem demonstrando, cada vez mais claramente, sua vocação de fraude.

A desistência de Sérgio Moro ajuda a tomar a temperatura do enfermo. Considerado até ontem um importante "player" da terceira via, Moro e seu partido perceberam a inviabilidade eleitoral da candidatura e, sem intenção de jogar dinheiro fora, optaram por tirar o time de campo. Tinha 7 pontos, dos quais 4 foram para Bolsonaro, 1 para Ciro e 1 para Dória (o outro se disseminou entre os demais nanicos ou foi absorvido por Lula, o que não faria nenhum sentido logico).

Hoje, a menos de cinco meses da eleição, sobram dúvidas quanto à competitividade dos outros concorrentes.

Um olhar sobre Ciro

ciro, gomes - Divulgação/PDT - Divulgação/PDT
Ex-governador do Ceará e presidenciável do PDT, Ciro Gomes
Imagem: Divulgação/PDT

Ciro é uma incógnita. Ainda não decolou como o candidato gostaria e os dirigentes do PDT imaginavam.

De olho no coeficiente eleitoral e, por extensão, nas coligações nos Estados, o presidente da legenda, Carlos Lupi, admitiu na segunda-feira que tem dialogado com o PT e falou por telefone com Lula na última semana.

Pode não ser nada —e não deve ser, mesmo, tamanha a virulência com que Ciro continua se referindo a Lula e seu partido. Mesmo assim, é oportuno olhar para um dos pontos investigados em outra pesquisa, divulgada em 25 de abril.

Segundo o estudo, feito pela FSB para o banco BTG Pactual, 61% dos eleitores de Ciro admitem a possibilidade de trocar de candidato até o dia do pleito. É o que os especialistas chamam de voto não consolidado. No caso de Ciro, é o que mobiliza a avaliação de que metade de seus 7 pontos percentuais pode migrar para Lula ainda no primeiro turno, na expectativa de afastar o risco de vitória de Bolsonaro e liquidar a fatura o quanto antes.

Segundo a pesquisa da Quaest, Lula venceria no primeiro turno com 50% ou 51% dos votos em caso de desistência de Ciro.

lula, bolsonaro - Divulgação/Ricardo Stuckert; Alan Santos/PR - Divulgação/Ricardo Stuckert; Alan Santos/PR
Eleições 2022: Lula e Bolsonaro
Imagem: Divulgação/Ricardo Stuckert; Alan Santos/PR

A terceira via e as urnas

Tudo conspira para fazer da eleição de 2022 a mais plebiscitária da história. E seu resultado vai depender fortemente do comportamento dessa pretensa terceira via (que não existe).

Se a maior parte digitará 13 com a mão direita enquanto a mão esquerda tapa o nariz ou se apertará 22 torcendo para não vazar nenhuma fotografia da cabine de votação (te esconjuro!), pouco importa. São essas definições que deverão nortear editoriais, campanhas de marketing, grupos de WhatsApp e redes sociais nas próximas semanas.