Carla Araújo

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Reportagem

Toffoli sugeriu a Bolsonaro deixar o país antes da posse de Lula, diz livro

O ministro do STF Dias Toffoli, que presidiu a Suprema Corte durante parte do governo de Jair Bolsonaro (PL), chegou a dar conselhos ao ex-presidente após a derrota eleitoral de 2022. E uma das sugestões foi justamente a de que ele não passasse a faixa para Lula e deixasse o país antes da posse.

"Presidente, sua presença na cerimônia de posse só vai mostrar um país dividido, as pessoas vão vaiar", disse o ministro, de acordo com o livro "O Tribunal - Como a Suprema Corte se uniu ante a ameaça autoritária", de autoria dos jornalistas Felipe Recondo e Luiz Weber, será lançado nesta quarta-feira (22), em Brasília.

Bolsonaro e Toffoli sempre tiveram proximidade, e o ministro do Supremo manteve o diálogo com o ex-presidente, mesmo com os constantes ataques feitos ao STF.

Na conversa, segundo o livro, Bolsonaro disse que não era o responsável pelos apoiadores que estavam inconformados com a derrota e acamparam diante de quartéis pelo país. "Quem mobilizou essas pessoas não fui eu. Então, eu também não posso desmobilizar", rebateu.

Sendo assim, a conversa rumou para a conclusão de que "era melhor que Bolsonaro saísse do país e deixasse Lula receber a faixa presidencial de outra pessoa", conta o livro.

Os então presidentes da República, Jair Bolsonaro, e do STF, Dias Toffoli, em evento de combate à corrupção em 2019, em Brasília
Os então presidentes da República, Jair Bolsonaro, e do STF, Dias Toffoli, em evento de combate à corrupção em 2019, em Brasília Imagem: Pedro Ladeira - 3.dez.19/Folhapress

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Moraes e o 'esculacho' aos militares

O livro conta ainda bastidores da relação entre o então ministro da Defesa de Bolsonaro, general Paulo Sérgio Nogueira, e o ministro do STF Alexandre de Moraes, que assumiu a presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em agosto do ano passado, justamente com o desafio de apaziguar a tensão de Bolsonaro com a corte eleitoral.

Paulo Sérgio — que deixou o comando do Exército para assumir o Ministério da Defesa — acabou encampando as teses bolsonaristas contra as urnas eletrônicas e protagonizou embates com o TSE.

O livro traz a avaliação de Moraes sobre a relação com o general. "Quanto mais o Paulo Sérgio se aprofundava na ignorância do Bolsonaro, mais eu tinha o apoio do Alto-Comando do Exército", avaliava Moraes.

Como contava com o apoio de outros generais mais antigos, Moraes rebateu de forma dura os sucessivos relatórios que os militares enviavam ao TSE.

"Paulo, é pegar ou largar. Eu sou amigo de vocês, não vou esculachar vocês em público, porque se eu der uma entrevista falando das perguntas que vocês fazem, que é o básico, será vergonhoso, que vocês perderam até o prazo para pedir acesso ao código-fonte, disse Moraes, segundo testemunhado por assessores.

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Diante de questionamentos de Paulo Sérgio Nogueira sobre possibilidade de ser instalado programa espião em todas as urnas, Moraes rebateu: "Ô, Paulo Sérgio, pode ser que caia um meteoro e destrua a Terra. Tenha a santa paciência", conta o livro.

*Colaborou Paulo Roberto Netto, do UOL, em Brasília

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