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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Negra e ex-quebradeira de coco: quem é a 1ª mulher a governar o Piauí

Regina durante posse hoje na Assembleia Legislativa do Piauí - Roberta Aline/Governo do Piauí
Regina durante posse hoje na Assembleia Legislativa do Piauí Imagem: Roberta Aline/Governo do Piauí
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

31/03/2022 04h00Atualizada em 31/03/2022 14h24

Uma ex-quebradeira de coco que virou professora de francês tomou posse hoje no cargo máximo do Piauí. Aos 71 anos, Maria Regina Sousa (PT) é a primeira mulher a assumir o governo no estado. Ela ficou com a vaga de Wellington Dias (PT), que renunciou para disputar vaga ao Senado em outubro.

A posse ocorreu hoje pela manhã na Assembleia Legislativa, seguida de cerimônia de transmissão do cargo no Palácio de Karnak.

Sousa, que é uma mulher negra, será apenas a segunda mulher a governar um estado entre os eleitos em 2018 (atualmente, só o Rio Grande do Norte tem governadora, Fátima Bezerra-PT). Além dela, o Ceará também será governado por uma mulher, com a renúncia de Camilo Santana (PT): Izolda Cela, do PDT, que tem posse marcada para sábado.

Regina (à direita) em cerimônia preparativa de sua posse com religiões de matrizes africanas  - Governo do Piauí - Governo do Piauí
Regina (à direita) em cerimônia preparativa de sua posse com religiões de matrizes africanas
Imagem: Governo do Piauí

História do coco de babaçu

Eleita vice-governadora do Piauí ao lado de Dias em 2018, Sousa assume o Executivo após uma história de vida que chama a atenção pelos saltos.

Nascida em União (a 65 km de Teresina), já na divisa com o Maranhão, ela ajudava os pais aos 10 anos de idade no roçado. Foi quebradeira de coco babaçu e viveu na cidade até ir cursar o ensino médio em Parnaíba (PI).

Formada professora, no início da década de 1970, passou a dar aulas na escola Eunice Weaver, da rede estadual, que era chamada "Preventório", já que só tinha como alunos filhos de pessoas com hanseníase.

Em 1976, Regina se formou em letras, com habilitação em língua portuguesa e língua francesa, pela UFPI (Universidade Federal do Piauí). Com a formação, chegou a ser professora de francês na mesma UFPI.

A trajetória política dela se confunde com a história sindical. Ela é uma das fundadoras da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Piauí —entidade da qual foi presidente estadual. Ela entrou na vida sindical ainda em 1978 e também foi uma das fundadoras do PT no estado (partido que venceu seis mandatos no Piauí).

Entre 2003 e 2010, foi secretaria de Administração do governo de Wellington Dias. Já em 2010, foi eleita primeira suplente do senador Dias e acabou herdando a vaga, quando ele deixou o cargo para disputar o governo, em 2014.

Regina durante sua atuação como senadora, em 2018 - Moreira Mariz/Agência Senado   - Moreira Mariz/Agência Senado
Regina durante sua atuação como senadora, em 2018
Imagem: Moreira Mariz/Agência Senado

Enquanto senadora, Regina sempre teve como foco os direitos humanos e o meio ambiente. A coluna tentou, durante a semana, conversar com ela, mas não houve agenda possível. Recebeu apenas o áudio de uma entrevista dela dada à sua assessoria de imprensa.

"Não estou pensando em grandes obras, nessa questão de visibilidade. Quero cuidar das pessoas invisíveis, algo que considero a grande obra da minha vida", diz.

Ela afirma que, após deixar o governo, no primeiro dia de 2023, vai fazer trabalho social e não pretende exercer cargo público. Para ela, ser a primeira mulher a governar o estado será mais do que uma honra.

A gente tem uma luta por empoderamento. Cada mulher que ocupa um espaço se torna um exemplo para outras mulheres, para as meninas que vão vendo que podem chegar. Temos 27 estados, e só em um uma mulher foi eleita governadora. Precisamos de mais.
Regina Sousa, nova governadora do Piauí

Preterida?

Para Vítor Sandes, cientista político e professor da UFPI (Universidade Federal do Piauí), Regina Sousa tem sido uma peça-chave dentro dos governos petistas do estado, "sobretudo por ser uma mulher historicamente vinculada ao partido".

"Nesse sentido, a governadora a ser empossada deve dar continuidade ao governo Wellington Dias, imprimindo, dentro dos limites políticos, seu traço pessoal", diz.

Regina e Wellington Dias - Governo do Piauí - Governo do Piauí
Regina e Wellington Dias
Imagem: Governo do Piauí

Ele conta ainda que ela é um quadro historicamente ligado ao PT do Piauí. "Ela ocupou cargos sistematicamente nos primeiros governos do Wellington Dias, nos anos 2000, com uma trajetória forte desde então", completa

Sandes diz que nunca foi explicado o porquê de ela não ser a escolhida pelo PT para ser a candidata à sucessão de Wellington Dias (o candidato será o atual secretário da Fazenda, Rafael Fonteles), mas ele formula duas hipóteses para isso.

"A primeira é o aspecto da viabilidade eleitoral: não era um nome colocado como possível candidata dentro do debate público. A segunda é que Rafael é um jovem e empresário conhecido na cidade, também é filho de uma liderança histórica do PT estadual", explica.

Acredito que o primeiro elemento, somado ao potencial de um pré-candidato com as características de Rafael, possibilitaram a indicação do seu nome e não de outros.
Vítor Sandes, cientista político