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Chico Alves


Ex-ministro da Defesa, sobre tuíte de Villas Bôas: "Não tem repercussão"

Ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo - Ricardo Borges/UOL
Ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo Imagem: Ricardo Borges/UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

18/10/2019 14h25Atualizada em 18/10/2019 15h27

O alagoano Aldo Rebelo, 63 anos, conhece bem o funcionamento das Forças Armadas e o pensamento de seus comandantes. Foi ministro da Defesa entre outubro de 2015 e maio de 2016. A serenidade com que desempenhou o cargo garantiu de todos os oficiais com quem lidou um tratamento respeitoso, que nunca teve como obstáculo o fato de ele ser comunista.

É com esse conhecimento de causa que Rebelo comenta o tuíte do general da reserva Eduardo Villas Bôas postado na véspera da sessão de quinta-feira 17 do STF, que começou a julgar a admissibilidade da prisão em segunda instância. A manifestação do oficial, que falava em "eventual convulsão social", foi interpretada como mais uma tentativa de intimidação aos ministros, cuja decisão pode resultar na libertação do ex-presidente Lula.

"Podem ficar todos tranquilos, isso não tem repercussão nenhuma", garantiu Rebelo, em entrevista à coluna. O ex-ministro da Defesa acha que manifestações desse tipo devem ser vistas dentro de uma normalidade e questiona: " Por qual motivo o STF teria que se sentir pressionado por uma opinião no Twitter de um general da reserva?".

Aldo Rebelo fala que não vê risco de politização das Forças Armadas e acha que a instituição tem muito a contribuir para a solução dos problemas nacionais, que ele analisa com otimismo.

UOL - Como o sr. analisou o tuíte do general Villas Bôas que falava em "eventual convulsão social", soando como intimidação ao STF na votação sobre prisão em segunda instância?

Aldo Rebelo - O general Villas Bôas é general da reserva, um general da reserva é um civil. Não valorizo tanto a opinião de Villas Bôas do ponto de vista institucional a ponto de repercutir no Supremo. Por qual motivo o STF teria que se sentir pressionado por uma opinião no Twitter de um general da reserva? Que coisa é essa? Aliás, vários generais da reserva foram destituídos pelo presidente da República e nada de mais aconteceu. Alguns até em situação de quase humilhação. Não houve reação nenhuma, ninguém se abalou. Isso virou uma coisa normal. Um tuíte de um general da reserva não pode ser visto como um acontecimento que deva ser valorizado. Na vida democrática do país essas coisas devem ser mais normalizadas, eu acho.

Tem sempre interprete esse tipo de manifestação como sinal de que os militares pensam em voltar ao poder, como em 64...

Podem ficar todos tranquilos, isso não tem repercussão nenhuma. As Forças Armadas são uma instituição orientada por princípios de hierarquia, disciplina, coesão. Se isso fosse quebrado de alguma forma seria uma tragédia. Tanto de cima para baixo, quanto de baixo para cima. Não vejo ninguém disposto a abrir esse precedente de politização das Forças Armadas. Se forem politizar pelos generais não têm como evitar que se politize pelo cabo, soldado, tenente e o resto. Eles têm consciência disso e acho que esse precedente eles não vão abrir. Quando vem de alguém da reserva é outra coisa, eles já estão fora da instituição.

O fato de o presidente ser capitão do Exército e ter tantos militares em sua equipe faz com que muita gente vincule o governo às Forças Armadas.

Há uma identificação do presidente com as Forças Armadas, por ele ser originário de lá. Não apenas o risco do fracasso, mas certa desorientação que marca o governo em áreas como Educação, Ciência e Tecnologia, Relações Exteriores, coloca as Forças Armadas nessa área de risco de serem confundidas. Mas acho que eles têm consciência de que esse risco existe e precisa ser contornado. O país é cheio de problemas e as Forças Armadas devem ser vistas como parte da solução e não como parte do problema. Os governos podem ser parte do problema, as instituições de Estado têm que ser sempre parte da solução. Têm que levar sempre em conta os conselhos do general Góis Monteiro, que dizia que as Forças Atmadas não podem ser milícias ou gendarmaria de partido ou corrente política.

O sr. é comunista e lidou com os comandantes das três forças como ministro da Defesa, sempre foi muito respeitado. Se surpreendeu com fato de as palavras "socialista" e "comunista" voltarem a ser usadas com a carga pejorativa do passado?

Eu não sei. Não vejo muita repercussão nesse tipo de linguagem, acho uma coisa marginal, secundária. O país não está levando isso em conta, as preocupações do país são outras, isso é uma coisa da época da Guerra Fria, que já acabou, mas algumas viúvas remanescem.

O presidente Bolsonaro usou muito esse tipo significado durante a campanha...

Ele usou essa classificação na ONU também. Mas ninguém leva isso muito em conta. É como outras coisas que o presidente fala que ninguém leva em conta.

Que tipo de contribuição as Forças Armadas podem dar para as soluções dos problemas brasileiros?

As Forças Armadas são a instituição de Estado mais antiga e mais importante do país, independentemente dos enganos de um ou outro integrante, e dos próprios enganos. Mas temos que julgá-la pela sua história. Não podemos julgar a Igreja Católica pela Inquisição ou pelo erro de um ou outro de seus integrantes, a credibilidade dela não vem dos seus erros, vem dos serviços prestados. Com as Forças Armadas é a mesma coisa. Há uma distinção entre a instituição e seus membros. A instituição é a sua história, sua memória, suas referências e não somente os seus integrantes.

Na época da Ditadura, os militares tinham posições mais nacionalistas, eram a favor das empresas brasileiras, Nesse momento, parece que os militares apoiam os movimentos de privatização e desestatização em curso. O que mudou?

Não mudou nada. Essa divisão entre nacionalistas e, vamos dizer assim, não-nacionalistas ou liberais sempre houve nas Forças Armadas. Agora mesmo houve críticas do general Mourão ao presidente Geisel por ser estatizante. Essas correntes sempre existiram nos quartéis, setores mais liberais e setores mais nacionalistas, mais ligados ao papel do Estado na Economia. Isso não mudou muito.

O sr. diz manter o otimismo quanto ao futuro do país. Quais os motivos para isso?

É preciso basear o otimismo em condições reais de o país superar os impasses, os desafios e as dificuldades. Digo que é um otimismo crítico, pois tenho consciência das nossas dificuldades. Mas eu olho o panorama mundial e entre as nações mais importantes não vejo nenhuma com condições e capacidade de superar suas dificuldades melhor que o Brasil. Primeiro, porque não temos grandes problemas de divisões étnicas, de ódios nacionais, de rancores religiosos como há na maior parte do mundo. Esse ódio histórico, muito difícil de ser erradicado, nós não temos. Também não temos várias comunidades falando idiomas diferentes. Temos uma comunidade nacional unida em torno de uma história comum, língua comum, território comum. Nosso conflitos nós temos administrado razoavelmente. Isso nos dá condições de enfrentar nossos problemas. Nossas contradições sociais, nosso conflitos, nossas dificuldades nós podemos resolver em menor tempo e com menor coeficiente de atrito que outras nações contemporâneas.

Muita gente se diz desanimada com o cenário de curto prazo.

Tem que olhar a longo prazo para frente e para trás. Há um intelectual, um ensaísta mexicano, Alfonso Reyes, que foi embaixador no Brasil nos anos 30. Ele dizia que é preciso mirar na linha do horizonte, que não é possível tentar compreender os problemas políticos somente olhando o momento. Usava uma imagem muito apropriada que era a do marinheiro no momento da tempestade. Se ele olha para o casco do navio, fica mareado, embriagado. Tem que olhar na linha do horizonte. Nesse nosso momento, quem tem responsabilidade não pode só olhar para o problema, tem que olhar para a linha do horizonte. Aí eu acrescento: para a frente e para trás. Esse é o nosso desafio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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