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Chico Alves


Sônia Guajajara, sobre assassinato de líder indígena: "Violência aumentou"

Sônia Guajajara  - Mídia Ninja
Sônia Guajajara Imagem: Mídia Ninja
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

02/11/2019 12h29

Em viagem pela Europa, para divulgar a campanha "Sangue Indígena, nenhuma gota a mais", Sônia Guajajara foi surpreendida com a notícia do assassinato de Paulo Paulino Guajajara, ocorrido no Maranhão, na sexta-feira 1. Segundo as primeiras informações, ele e outros de sua etnia foram atacados numa emboscada promovida por madeireiros que atuam ilegalmente em terras demarcadas no município de Bom Jesus das Selvas. A Polícia Federal vai investigar o crime.

Coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Sônia disse, em entrevista à coluna, que a morte de Paulo é crime hediondo e confirma a importância de mostrar ao mundo o que ocorre nessas áreas. "É muito dolorido estar aqui exatamente para fazer essa denúncia e dar visibilidade para toda a violência que vem acontecendo e a gente se deparar com um acontecimento desses", diz ela, que em 2018 concorreu a vice-presidente na chapa de Guilherme Boulos, do PSOL.

Sônia explica que a região onde ocorreu o crime há muitos anos sofre com o desmatamento promovido por madeireiros. Por isso, os guajajaras criaram em 2011 o grupo "Guardiões da Floresta" para monitorar o território e evitar extração ilegal de madeira. Agora, no entanto, o ingrediente da violência piora o cenário. "Essa violência, esses ataques, isso está na agenda oficial do governo. Ele está autorizando isso, ele está chamando o povo para se armar, então agora tudo se torna mais perigoso", acredita ela.

Nessa entrevista, concedida de Portugal, ela sugere três medidas urgentes para encaminhar uma solução: demarcar as terras indígenas, dar segurança às áreas já demarcadas e gerar renda para a população do entorno, para que não precise recorrer ao desmatamento ilegal para sobreviver:

UOL - Quais informações a sra. tem sobre o assassinato de Paulo Guajajara?

Sônia Guajajara - Os meninos são guardiões do território, fazem constantemente esse trabalho de monitoramento da terra, coibir a entrada dos madeireiros que fazem a exploração ilegal no território. O nosso povo está cansado de ver todo o território sendo destruído. Então, teve essa iniciativa de organizar o grupo dos guardiões para fazer esse trabalho por conta própria. O trabalho é feito sem nenhum apoio do poder público, sem nenhum apoio do governo federal, dos órgãos, da Funai. Eles fazem sem nenhuma condição mesmo. É claro que isso traz muita insegurança e tem provocado muitos confrontos entre indígenas e madeireiros, porque os madeireiros estão lá dentro sempre e os meninos estão ali fazendo esse trabalho de proteção. Como eles tentam coibir a entrada dos madeireiros, são o tempo todo ameaçados, o tempo todo atacados.

Agora, infelizmente, um deles perdeu a vida fazendo esse trabalho de proteger a terra. Um "menino" jovem, com menos de 30 anos. O Laércio, que é vice-coordenador dos guardiões foi baleado também. Era um dos que estavam mais ameaçados nos últimos tempos, todos andavam de colete. O Paulo, que foi morto, estava de colete, mas o tiro mortal foi na cabeça, na cara. Então, não é alguém que está lá por acaso que vai atirar porque se confundiu. É tiro certeiro mesmo, dado para matar.

O que nós sabemos é isso. Eles estão dentro do território indígena e são surpreendidos dessa forma, é certeza de que foi emboscada dos próprios madeireiros. Já vinham falando faz tempo que eles iam matar esses meninos, já falavam isso abertamente. Para nós, o lugar mais seguro deveria ser dentro das terras indígenas. Como eles são alvejados dentro do próprio território indígena?

Essas ameaças foram levadas às autoridades?

Tem várias ocorrências registradas por esses meninos lá na Polícia Civil e na Polícia Militar, lá no município de Amarante. Essas denúncias já foram registradas na Secretaria de Segurança Pública do estado, no Ministério Público, todos já têm denúncias formalizadas.

A violência, então, atravessou os governos Lula, Dilma, Temer e chegou agora à gestão Bolsonaro?

Há uma diferença, agora. Essa violência, esses ataques, isso está na agenda oficial do governo. Ele está chamando o povo para se armar, então agora tudo se torna mais perigoso. A população está se sentindo no direito de andar armada. Os conflitos então aumentam, porque alguém que está armado sente muito mais coragem de promover um ataque do que uma pessoa que não está aramada. Por mais que isso ainda não seja totalmente legalizado, mas as pessoas se sentem respaldadas por uma afirmação do presidente da República.

Essa história do armamento, essa história de não querer mais território indígena demarcado, essa história de abrir os territórios indígenas para exploração, tudo isso legitima essas ações. As pessoas se sentem muito mais encorajadas a praticar a violência, porque eles sabem que estão respaldadas pelo discurso do próprio presidente. Isso fragiliza muito mais os povos indígenas dentro do seu próprio território, intensifica esses conflitos. A diferença é que a violência agora está institucionalizada, faz parte da agenda oficial do governo.

Quais seriam a providências para estabelecer a paz na região?

A demarcação de terras indígenas é o primeiro ato que qualquer presidente comprometido poderia fazer. Segundo: proteger os territórios que já estão demarcados. Araribóia é uma terra demarcada, mas não tem proteção nenhuma, não tem nenhum apoio do governo, do poder público para dar segurança aos povos que estão dentro desse território E terceiro é dar condições para as pessoas que estão no entorno e exploram ilegalmente a madeira para que possam trabalhar, ter renda. O que não se pode é justificar como atividade de geração de renda algo feito com atos ilícitos. Não pode dizer que o pessoal não tem emprego e aí vai desmatar, vai tirar a madeira. Mas é ilegal, não pode de forma alguma ser uma atividade que seja vista como geradora de renda. Temos falado muito isso no Maranhão, em discussão com o próprio Governo do Estado. É preciso gerar renda para esses povoados e municípios que estão em volta. Temos que dar um basta nessa violência. Nosso povo não pode pagar com a própria vida por uma negligência do Estado.

Aquela área já está muito desmatada, não é?

O território Araribóia é bastante detonado mesmo. O desmatamento, a exploração ilegal lá é constante. Ainda por cima teve incêndio em 2015, 2016 e 2017. Foram três anos consecutivos de grandes incêndios que destruíram 52% da terra. É uma área que tem um povo isolado, os Awá, que vive ali e que não tem contato com ninguém, nem mesmo com os Guajajaras que são ali do território. Esse povo está totalmente vulnerável, ameaçados pelos madeireiros, ameaçados pelos incêndios, pelas secas que esses incêndios causam. Eles agora já estão se aproximando das aldeias, estão vindo buscar água nos riachos mais próximos porque o lugar onde eles estão não tem mais. Por isso, os Guajajaras fazem esse trabalho de monitoramento, essa ronda no território, para tentar coibir essa invasão e garantir esse espaço para os Awá continuarem a viver ali do seu jeito, com seu modo de vida.

Foi isso que levou à criação dos "Guardiões da Floresta"?

Tentam garantir a segurança da terra e do povo. Eles tentam evitar que se destrua o território todo, já que tem mais de 40% do território destruído, detonado por causa dessas ações ilegais. Chegou a hora de a gente dizer: vamos parar com isso, vamos dar um basta nessa situação. Como o poder público não assume nada, nós resolvemos fazer isso do nosso próprio jeito. Isso é feito sem condição nenhuma, sem apoio nenhum, é claro que traz uma insegurança muito grande.

Chico Alves