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Chico Alves


Deputado do Novo que pediu suspensão de Salles: "Poderia achar outra casa"

Partido Novo diz que Ricardo Salles não indicado pelo partido para o Ministério. -  Reprodução / Ricardo Salles
Partido Novo diz que Ricardo Salles não indicado pelo partido para o Ministério. Imagem: Reprodução / Ricardo Salles
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

03/11/2019 04h00

Autor do pedido que levou à suspensão do ministro Ricardo Salles do partido Novo, o deputado estadual Chicão Bulhões, do Rio de Janeiro, disse não ter nada pessoal contra o responsável pela pasta do Meio Ambiente. Suas objeções são motivadas pela conduta política do ministro. "Acho que ele tem muito mais uma pegada de um fiel escudeiro do Bolsonaro que um fiel escudeiro do partido Novo", afirma Bulhões, em entrevista à coluna.

O conselho de ética da legenda decidiu suspender Salles em caráter temporário, na quinta-feira 31, por causa de "risco de dano grave e de difícil reparação à imagem e reputação do Novo". Ao fim do processo, ele poderá ser expulso da sigla.

O ministro não reagiu bem à punição e, em entrevista à Rádio Jovem Pan, reclamou que a decisão foi manipulada e disse que "quem não reza a cartilha do Amoêdo ele boicota", referindo-se a João Amoêdo, que concorreu à presidência na última eleição.

Bulhões disse que o processo foi feito sem "caciquismo" e que Salles sequer se deu ao trabalho de fazer sua defesa. O deputado fluminense sugere que o ministro procure outra legenda: "Entendo que ele até eventualmente poderia encontrar uma casa que tenha uma visão mais próxima da dele no partido em que estiver o presidente Bolsonaro".

UOL - O que o levou a pedir a suspensão e a expulsão de Ricardo Salles do Novo?

Chicão Bulhões - O Novo já reiterou por mais de uma ocasião que não compõe a base do governo federal e que não indicou o Salles para a pasta do Meio Ambiente. Ele já tem um histórico de quando era candidato em que sofreu advertências públicas pelo material de campanha que chegou a veicular na época, que tinha armas, javalis e tudo mais. O partido chegou a se manifestar publicamente sobre isso, chegou a desautorizar esse material. Na nossa visão o Salles tem um histórico de desafiar e de colocar o projeto político próprio à frente do projeto político-partidário.

Não há razão nenhuma para ele estar no governo Bolsonaro e defendendo a pauta do governo estando filiado ao Novo. Ele próprio poderia ter pedido a suspensão, podia ter-se afastado enquanto ministro, para que não houvesse esse tipo de desgaste público. O partido já foi exposto e todos nós do partido já fomos expostos. O pedido de suspensão que eu fiz foi muito motivado por isso. Também pelas condutas dele à frente do ministério, como o desrespeito a entidades internacionais, a forma agressiva como se coloca, os ataques a cientistas, a técnicos, a pessoas que estão fazendo o seu trabalho. O Novo defende muito a visão de um governo técnico, que possa servir ao público e não seja loteado por razões meramente ideológicas. Na nossa visão, ele não estava seguindo esses princípios.

Quando falamos de conduta ética, estamos nos referindo a todo esse pacote. Desde a advertência de campanha a essa forma agressiva de se comunicar. Acho que ele tem muito mais uma pegada de um fiel escudeiro do Bolsonaro que um fiel escudeiro do partido Novo.

É legítimo que o presidente escolha e convide quem ele quiser para o seu governo, mas não significa que precisamos concordar. Não significa também que Salles, por conta própria, possa arrastar todo o partido para colocar sob uma agenda própria, que é a agenda do governo Bolsonaro, que não é o mesmo que o Novo defende. No nosso entender é um constrangimento, é um possível dano à imagem do Novo, porque ficou público e notório que tanto a imprensa quanto a opinião pública enxergam como se o partido estivesse concordando com essa agenda e isso não necessariamente é verdade. Isso tinha que ser discutido no âmbito partidário, não ser feito da forma imposta como foi, arrastando o partido para dentro de um governo do qual nunca quisemos fazer parte.

Em que medida a enxurrada de críticas à gestão de Salles influencia nessa decisão?

O fato de ter uma resposta demorada para os problemas ambientais, o fato de não termos infraestrutura adequada para responder a queimadas, o fato de termos reiteradamente problemas nessa pasta demonstra na verdade esse problema que está na origem da nossa representação: a decisão de não prestigiar o trabalho técnico. Ele segue muito a cartilha bolsonarista de dizer que quem não concorda com ele é de esquerda. Eu, por exemplo, não sou de esquerda, o Novo não é um partido de esquerda. Isso de querer desqualificar usando o termo "esquerda" está muito na cartilha do bolsonarismo. Por isso, sustentamos que esse tipo de conduta não é algo que a gente espera de alguém que representa os valores do partido.

Em entrevista à Rádio Jovem Pan, ele reclamou que a decisão do conselho de ética foi manipulada. Até participou do programa com uma camisa do partido Novo.

Claramente uma provocação. Não sei de onde ele tirou essa história, o processo é sigiloso. Eu como denunciante só tive acesso à decisão onde consta que houve maioria. Não sei de onde ele tirou essa informação de que foi uma pessoa que decidiu sozinha. Segundo ponto: ele sequer se deu ao trabalho de se defender. Muito estranho ele desqualificar um processo do qual ele não quis participar. Preferiu ir à imprensa atacar pessoas do partido e o próprio partido sem sequer se defender. Se ele quer vestir a camisa do partido, participar e respeitar as instâncias partidárias, acho que deveria começar respeitando a própria comissão de ética apresentando seu ponto de vista e sua defesa. E não o fez.

O que acha da acusação de que quem não reza pela cartilha de João Amoêdo é boicotado?

Eu não tenho notícias de que o partido funcione assim. Não é a experiência que eu tenho. Não sei que tipo de experiência ele teve que o levou a essa conclusão. Claro que tem direito de ter a opinião dele, tem direito de criticar o partido, todo mundo tem direito de crítica e opinião. Mas não me parece mais que isso: uma opinião. Não é o que a gente sente no dia a dia. O partido Novo é recente, foi criado por muita gente que não veio da política, então é normal que durante esse período de desenvolvimento haja dores e desenvolvimentos que vão demandar uma participação maior. Ele poderia participar ativamente das atividades da legenda, mas resolveu tomar decisões como pessoa física e arrastar o partido junto com ele. Então, não me parece que ele esteja tão preocupado assim com o funcionamento do partido. O novo mostrou não ter caciquismo político, especialmente nesse episódio, em que a comissão de ética funcionou de forma independente.

Acha que se a comissão não decidir pela expulsão ele terá clima para continuar no Novo?

Eu justamente fiz a representação por entender que ele me parece defender muito mais uma agenda do governo Bolsonaro do que uma agenda do partido Novo. Entendo que ele até eventualmente poderia encontrar uma casa que tenha uma visão mais próxima da dele no partido em que estiver o presidente Bolsonaro. Mas eu acho que não há motivos para não ter clima se a decisão for tomada com base na racionalidade, com fundamento. Apenas haverá discordâncias. A representação é justamente para entender se o Ricardo Salles está de fato alinhado com os valores e princípios do Novo. Se o partido entender que sim, a decisão deve ser respeitada. Se entender que não, igualmente tem que ser respeitada.

Chico Alves