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Jandira Feghali: "PCdoB não vai mudar de nome. Me orgulho de ser comunista"

Deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) - Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) Imagem: Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/12/2019 14h42

Correu nas redes sociais, neste sábado, a notícia surpreendente do mundo político: o Partido Comunista do Brasil estaria mudando de nome e de cor. Passaria a se chamar Movimento 65 e, no lugar do vermelho, adotaria as cores verde e amarela. Líder da Minoria na Câmara dos Deputados, a deputada Jandira Feghali desmente: "Nosso partido não vai mudar de nome, tenho muito orgulho de ser comunista", diz ela, em entrevista à coluna.

A parlamentar explica que há uma iniciativa para criar dois caminhos de formação de lideranças. Um para quem quer atuar na política não-partidária (a Plataforma dos Comuns) e outro para aqueles que pensam em se candidatar (o Movimento 65). Ambos terão cursos presenciais e on line. "O Renova BR tem seus cursos e quando a gente faz todo mundo estranha...", brinca Jandira.

UOL - O PCdoB vai mudar de nome e de cor?

Jandira Feghali - Não procede essa informação. Continua PCdoB, continua com seu símbolo, com sua legenda, com sua cor. Verde e amarelo sempre utilizamos, porque a gente não esconde a bandeira do Brasil. Mas não existe esse movimento de negação que estão comentando.

UOL - pode explicar melhor as mudanças que foram decididas?

Existe a Plataforma dos Comuns, que lançamos para agregar pessoas insatisfeitas, indignadas, que querem combater o neofascismo, que têm resistência a esse projeto político que estamos vivendo e que ainda não têm identidade absoluta com o nosso programa. Então, abrimos essa plataforma, para que as pessoas se incorporem e vamos fazer cursos para que entendam o que nós pensamos, o que nós achamos do momento político, quais são nossas propostas e as nossas plataformas. As pessoas que se identificarem vêm para o Movimento 65 e podem ser candidatas pela nossa legenda.

A Plataforma dos Comuns é uma coisa mais ampla que o partido, pode ter integrantes que são ou não do partido. A pessoa pode ser ativista, artista, comunicador digital... A partir do momento que opta por ser candidata, a pessoa vem para o Movimento 65. Aí vai ter uma formação específica para candidatos, com cursos online e presenciais. A legenda e o nome do partido continuam sendo PCdoB.

O Movimento 65 é uma filiação à legenda. A Plataforma dos Comuns abre espaço de forma mais ampla para pessoas que estejam na luta da resistência democrática, que queiram participar das mais variadas formas. Usar a palavra comuns é importante, porque é a etimologia da palavra comunista: comunitário, público, coletivo, partilhado. A palavra comum liga as pessoas à etimologia da palavra comunista.

UOL - Nesses tempos de conservadorismo, se identificar como comunista é um complicador na prática política?

Não tenha dúvida que essa legenda sempre foi alvo de preconceito. Nesses tempos de ódio e de violência, óbvio que isso tem peso. Agora, tudo é comunista, todo mundo que discorda é comunista. Nesses tempos de ódio há uma polarização grande conosco e o preconceito se amplia.

Por outro lado, as pessoas que se opõem a esse tipo de ódio entram na defesa. Basta lembrar como no Carnaval fantasias que citavam a Ursal, a foice e o martelo foram utilizadas como símbolo de resistência. Tem sempre dois lados. O preconceito aumenta, mas a resistência aumenta também.
Me orgulho de ser comunista, porque eu acredito nesse valores de solidariedade e bem comum, tenha o nome que tenha.

UOL - O governo federal já teve um ministro da Defesa comunista (Aldo Rebelo) que se comunicava bem com a cúpula das Forças Armadas e era respeitado. A sra. imaginou que o conceito sobre os comunistas fosse retroceder tanto?

No mundo tem retrocesso também, neonazistas aparecendo, essa mesma linha ressurgiu. A agenda de acumulação de poder e de riqueza não tem escrúpulo. Só tem viabilidade absoluta se restringir a democracia. Porque é tão violenta com o povo, com os trabalhadores, tão excludente para a maioria, que precisa da restrição democrática, de determinados tipos de guerra e repressão intensa. Se for preciso incorporar uma força autoritária, criminalizar os movimentos sociais e levar para a ilegalidade as forças e os partidos, vai fazer. Isso leva a um retrocesso.

Mas por outro lado vejo que o nível de consciência de muita gente não admite mais esse tamanho de retrocesso. Por isso, acho que não dura muito tempo, eles se isolam muito, como estamos vendo no mundo. Tenho esperança que aqui também não dure muito tempo. Acho que não tem como se reproduzir por osmose porque o nível de resistência tende a crescer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves