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Chico Alves


Com mais de 5 mil mortes na pandemia, do que ri Jair Bolsonaro?

Presidente Jair Bolsonaro no stand de tiro - Reprodução de vídeo
Presidente Jair Bolsonaro no stand de tiro Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/04/2020 18h48

A sequência de imagens trágicas virou rotina. Corpos amontoados em necrotérios de Manaus, Duque de Caxias ou outra cidade qualquer; pilhas de caixões; fileiras intermináveis de covas rasas em São Paulo.

Os relatos dramáticos se sucedem, com angústia crescente: enfermeiros e médicos que lutam sem equipamentos para tentar salvar vidas, doentes que sofrem com falta de ar e escassez de respiradores, gente que viu o parente amado perder a vida sem atendimento.

Assim têm sido os últimos dias no Brasil.

Desde que, no início de março, foi registrado o primeiro caso de coronavírus no país, previu-se a catástrofe. E ela está acontecendo diante de nossos olhos.

Hoje, a contabilidade macabra informa que há 71 mil brasileiros infectados pelo coronavírus. São 5 mil mortos na pandemia, mais que na China. A tendência é que a situação piore muito.

Em um dia como esse, o presidente Jair Bolsonaro informa em sua página do Facebook que o Ministério da Saúde distribuiu 272 respiradores ao Sistema Único de Saúde. Não diz, claro, que a promessa do governo era de 14 mil equipamentos. Além de respiradores, faltam aventais, ambulâncias... Há muito por fazer.

Correto ao defender o isolamento social, o incensado ex-ministro da Saúde Luiz Henrque Mandetta não fez muito mais que isso para ajudar estados e municípios a enfrentar a pandemia. Nelson Teich, que chegou agora, ainda parece perdido em meio à gravidade da situação.

Mesmo assim, o presidente se permitiu hoje um momento de lazer. Foi a um clube de tiro praticar. No vídeo publicado em suas redes sociais, aparece sorridente ao lado do alvo, como se essa fosse uma terça-feira qualquer.

É o caso de perguntar: qual o motivo do riso do presidente?

Onde está o pudor do governante diante da pandemia que se abate sobre o país?

Nem se vai exigir, obviamente, que Bolsonaro passe 24 horas de semblante abatido. Mas em público, e especialmente quando mobiliza sua equipe de divulgação para registrar as imagens, é preciso que o mandatário transmita o pesar que deveria estar sentindo pelas vítimas da covid-19.

É urgente que alguém tire o presidente de suas preocupações com os filhos encrencados em investigações ou com seus concorrentes na eleição de 2022 e diga a ele que a situação não está para sorrisos.

Não há exagero nesse cuidado. Procure uma foto recente em que se note um mínimo traço de gracejo na face de Angela Merkel, Emmanuel Macron ou mesmo Donald Trump. Não vai achar.

Certos ou errados, os governadores e prefeitos tentam de alguma forma administrar o caos, lidam com a tragédia em seus hospitais locais. Bolsonaro deveria estar rodando o país, ajudando-os, independente de partido ou ideologia, perguntando o que precisam para tratar dos cidadãos. Ao invés, está empenhando em barracos políticos, escaramuças palacianas, palpites infundados sobre medicamentos como cloroquina e incentivo à quebra do isolamento.

Se não vai dar à pandemia a importância devida e pretende continuar deixando os brasileiros entregues à própria sorte, pelo menos que Bolsonaro deixe de sorrir em público. Se não por solidariedade sincera às milhares de vítimas da covid-19, ao menos pela compostura que o cargo exige.

Chico Alves