PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Insólita receita de Bolsonaro para vencer a covid-19: ser viril e corajoso

Jair Bolsonaro causa aglomeração na chegada a Bagé (RS) - Tiago Rolim de Moura/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro causa aglomeração na chegada a Bagé (RS) Imagem: Tiago Rolim de Moura/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

01/08/2020 04h00

Na cabeça de Jair Bolsonaro, a dinheirama gasta em ciência para pesquisar prevenção e cura da covid-19 deve ser um baita desperdício. A julgar pelas sugestões que dá a seus eleitores em plena pandemia, tudo se resume a uma questão de virilidade e coragem. "Tem medo do quê? Enfrenta!", estimulou ontem o presidente, dirigindo-se aos simpatizantes que se aglomeravam para vê-lo em Bagé, no Rio Grande do Sul.

Volta e meia prescreve esse mesmo remédio. Em março, ao passear por Brasília, deu conselho parecido aos seguidores. "Enfrenta a doença como homem, pô, não como moleque", exortou Bolsonaro, sendo ainda mais específico quanto ao gênero a que se referia. Foi nessa escapada, aliás, que soltou a já célebre frase "um dia todos nós vamos morrer", pérola de filosofia estoica.

A não ser pelos bolsonaristas mais fanáticos, a maioria dos brasileiros sabe que, ao contrário da recomendação descabida do presidente, não basta estufar o peito e falar grosso para passar incólume pela pandemia.

No momento em que visitava o Rio Grande do Sul, o número de mortos pela doença no Brasil passou de 92 mil e o de casos superou 2,6 milhões. Com um mínimo de sensatez, Bolsonaro deveria aconselhar os simpatizantes a ficarem resguardados em casa, e não a colocarem-se em risco "enfrentando" o vírus . Seria a orientação mais adequada a um chefe de Estado que se preocupa com a saúde de seus governados.

Declarações desastradas como essa são tão frequentes que se incorporaram à realidade política nacional. É como se fosse algo inevitável — nos últimos dias, até comemorou-se o baixo índice de caneladas, por conta do confinamento presidencial.

Aquele que não concorda com as ideias heterodoxas de Bolsonaro, lê a frase esquisita do dia, lamenta e toca em frente a sua vida. Há, porém, os que seguem o que o presidente diz. Para estes, serão incalculáveis as consequências de "enfrentar" o coronavírus.

Se o seu Ministério da Saúde não consegue gastar mais que 30% da verba destinada ao combate à covid-19, se cancelou a compra de respiradores e se não consegue ajudar os estados a adquirir medicamentos para intubação, Bolsonaro poderia ao menos colaborar recomendando que os brasileiros não se exponham à doença.

Ao invés disso, propõe um constrangedor concurso para saber quem é mais macho e destemido.

É assim, sob essa inacreditável diretriz, que o Brasil atravessa a pior pandemia da história da humanidade.

Chico Alves