PUBLICIDADE
Topo

Com 100 mil mortos na pandemia, live de Bolsonaro é peça para a posteridade

Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro - Reprodução de vídeo
Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/08/2020 12h26

Teve clima descontraído a última live de Jair Bolsonaro antes de o Brasil chegar à marca dos 100 mil mortos por covid-19. Na transmissão de ontem, o presidente estava ao lado do general Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde, que, segundo Bolsonaro, "vem dando certo até o momento, apesar de muitos criticarem por ser militar". Difícil imaginar como seria se estivesse dando errado.

Aos risos, o presidente exibiu camisas de futebol, falou da "corridinha de gordinho" que costuma praticar, fez brincadeiras sobre a possibilidade de o ministro da Infraestrutura asfaltar o mar e constrangeu Pazuello, perguntando se ele é casado. "Estou tentando novamente me reorganizar", respondeu, sem graça.

Somente 10 minutos depois de iniciada a conversa, Bolsonaro falou sério, sobre a liberação de quase R$ 2 bilhões para garantir a parceria na produção da vacina contra o coronavírus criada na Universidade de Oxford. O ministro da Saúde previu 100 milhões de doses em janeiro.

Pouco depois, saiu do terreno da ciência e voltou às mistificações: novamente recomendou hidroxiclorquina para pacientes de covid-19. Criticou o ex-ministro Mandetta por ser radicalmente contra a indicação do medicamento. "(Falava em) ciência, foco, não sei quê, com aquele ar professoral dele", ironizou.

"Se comprovar mais tarde (a eficácia da cloroquina), essas pessoas que proibiram na 'mão grande', essas pessoas vão ter que responder", alertou o presidente, referindo-se a governadores e prefeitos que não permitiram o uso do remédio. "Ou pode ser que se comprove que isso aqui não foi tão eficaz assim. Paciência". Nenhuma palavra sobre o risco à vida que a cloroquina pode causar.

Não satisfeito em propagandear o medicamento, ainda falou da Ivermectina e da Anita, um vermífugo que o astronauta que ocupa o Ministério da Ciência e Tecnologia disse dar resultado para a covid. Os maiores especialistas do mundo o desmentem.

Pazuello fez sua explanação, explicando quais mudanças introduziu na pasta. "O que nós mudamos foi dizer: procure o médico imediatamente". Não detalhou nenhum plano nacional, nem esboço de qualquer estratégia. Também não explicou porque gastou apenas um terço dos recursos à sua disposição na pandemia.

Com três meses no cargo, as mortes de dezenas de milhares de brasileiros pela pandemia mostram que a gestão do general está longe de ser um sucesso. Pelo contrário. O Brasil é reconhecido internacionalmente como um dos maiores fracassos mundiais no combate ao coronavírus.

Apesar disso, ao responder a algumas perguntas chapa-branca, Bolsonaro e Pazuello continuaram se comportando como se estivessem fazendo todo o possível contra a doença.

O presidente voltou a insistir que parar a atividade econômica por causa do distanciamento social foi um erro e soltou mais uma de suas frases destrambelhadas. "Desemprego é um efeito colateral mais grave que o próprio vírus", defendeu.

Chegou ao fim da live com a declaração que ganhou destaque nos noticiários: "A gente lamenta todas as mortes, mas vamos tocar a vida e achar uma maneira de se safar" (sic).

Nesse momento tragicamente histórico, o vídeo do presidente é uma peça para a posteridade. Pode servir aos historiadores do futuro para que tenham ideia do nível de alheamento do político mais poderoso da nação (e dos que o cercam) em relação à pior pandemia da história da humanidade.

Na balbúrdia que se transformou a luta contra a pandemia no país, 100 mil vítimas não é um número terrível o bastante para fazer o governo acordar. Com esse cenário, ainda deverá aumentar muito a quantidade de brasileiros que, infectados pelo coronavírus, infelizmente não conseguirão "se safar".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.