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Chico Alves


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Negacionismo à brasileira: "Se não morri, Bolsonaro tem razão"

 Jair Bolsonaro, presidente da República, segura uma caixa de cloroquina à frente do Palácio da Alvorada  - MATEUS BONOMI/ ESTADÃO CONTEÚDO
Jair Bolsonaro, presidente da República, segura uma caixa de cloroquina à frente do Palácio da Alvorada Imagem: MATEUS BONOMI/ ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

09/08/2020 10h52

Nem todo bolsonarista é negacionista, mas todo negacionista é fã de Jair Bolsonaro. E não são poucos. É fácil encontrá-los nas redes sociais propagadoras de fake news ou fazendo comentários sem pé nem cabeça nas páginas do presidente.

Mesmo com 100 mil mortos, os negacionistas não esboçam solidariedade. Seu único objetivo é defender o Mito e os mitos sobre terra plana, cloroquina, etc.

Para muitos deles, o luto do país é causado pela imprensa, que adora dar notícias negativas. Preferem o raciocínio pueril do governo, que esconde as vítimas fatais e destaca alegremente o número de pacientes que foram recuperados.

É como se o Brasil não devesse ter dado tanto destaque aos 260 habitantes de Brumadinho que perderam a vida no rompimento da barragem, em janeiro de 2019, para comemorar os 36 mil que não morreram.

Ou como se os japoneses de Hiroshima tivessem que celebrar os 270 mil moradores da cidade que escaparam da bomba atômica e dar menos importância aos 80 mil mortos.

Isso é mais que falta de empatia, é crueldade sem retoques.

Alguns ainda resistem a admitir a existência de uma pandemia e outros duvidam do número de mortes, que, segundo acreditam, estaria sendo inflado pelos jornalistas e por adversários do Planalto.

E aquela jovem que deu depoimento na TV sobre o pai que morreu de covid-19? "É entrevista armada pelos jornalistas", costumam repetir nessas ocasiões. E o vizinho que morreu infectado pelo vírus? "Certamente tinha alguma outra doença — essa, sim, a causa da morte". E o tio, enterrado na semana passada? "Pela idade, estava no grupo de risco, já não ia durar muito".

Nesse transe coletivo, os adeptos da negação à ciência rejeitam o uso de máscaras, fazem passeata contra o isolamento social e não poupam exaltação à cloroquina propagandeada pelo presidente da República.

Enganou-se quem pensou que, à medida que os dramas da pandemia se multiplicassem, naturalmente esses personagens seriam puxados para a realidade.

A morte dos outros não emociona o negacionista. Sentir o próprio coração batendo é a prova de sua tese. Por ele, o Brasil pode chegar às 200 mil mortes, seu objetivo é apenas ganhar as discussões, mesmo que com argumentos mentirosos.

Talvez só mude de opinião se for contaminado pelo coronavirus e a doença evoluir para o pior. Aí, antes do último suspiro, no leito do hospital, quem sabe passe pela sua mente confusa a pergunta angustiante: "Então quer dizer que Jair Bolsonaro estava errado?..."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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