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Chico Alves


Chico Alves

Os números de Bolsonaro no Datafolha e o negacionismo de parte da esquerda

Presidente Jair Bolsonaro - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: ADRIANO MACHADO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

15/08/2020 12h18

A julgar pelas discussões nas redes sociais, a ascensão de Jair Bolsonaro na pesquisa Datafolha deu um nó na cabeça de internautas identificados com a esquerda. Não apenas por constatar a queda de rejeição do presidente mesmo com mais de 100 mil mortos na pandemia, mas especialmente pelo motivo indicado como causa para esse fenômeno: a concessão do auxílio emergencial.

As evidências de que os R$ 600 turbinaram a imagem de Bolsonaro estão gritantes na pesquisa. A melhora mais significativa ocorreu entre trabalhadores informais ou desempregados com renda familiar de até três salários mínimos, justamente o público que recebe o benefício. O Nordeste foi onde a aprovação a Bolsonaro mais cresceu e a rejeição mais caiu. Na região, 58,9% das famílias recebem algum tipo de ajuda criada na pandemia (dados do IBGE).

Quem gastar um tempo lendo a pesquisa vai achar outras pistas de que foi, sim, o auxílio emergencial que levou a esse resultado.

Na grande praça virtual de tretas que é o Twitter, o levantamento do Datafolha foi virado e revirado, como era de se esperar. A reação de muitos tuiteiros que se identificam como progressistas ou esquerdistas, no entanto, seguiu caminhos tortuosos.

Não foram poucos os que identificaram traços de "elitismo" em quem associa a melhora do desempenho de Bolsonaro ao auxílio emergencial. Para esses, seria menosprezar os menos favorecidos acreditar que possam colocar os R$ 600 à frente de questões mais subjetivas, como política ou ideologia.

Apesar de bem-intencionados, talvez ignorem o real nível de carência dos brasileiros. Algo tão absurdo que seis notas de R$ 100 bastaram para fazer com que a extrema pobreza no país caia ao menor nível dos últimos 44 anos, como revela a Fundação Getúlio Vargas.

Houve também no Twitter quem fosse da idealização à demonização. Uma turma lançou mão de comentários revoltados, na linha do "cada povo tem o governo que merece".

Quem argumenta assim talvez não tenha noção da diferença que R$ 600 podem fazer no orçamento de várias famílias nos pedaços mais pobres do país.

Um dado da pesquisa Datafolha pode ajudar a esclarecer esse ponto: no Brasil inteiro, 53% disseram que usam o auxílio emergencial para comprar comida. No Nordeste, 65% usam o benefício para esse fim. Ou seja, é gente lutando pra matar a fome.

Obviamente, nem todos aqueles que se identificam como progressistas argumentam assim, mas impressiona a quantidade de tuítes que tentam negar as evidências. É uma parte da esquerda que, direta ou indiretamente, reivindica superioridade moral sobre o resto da humanidade.

Enquanto esse negacionismo perdurar, Bolsonaro continuará subindo nas pesquisas.

Cheios de perplexidade, descobrimos eleitores que preferem apoiar aqueles que garantem a sua sobrevivência, mesmo na contramão das nobres causas que discutimos nas redes sociais.

Mas, afinal, haverá causa mais nobre que a sobrevivência?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves