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Chico Alves


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Surgiu o esquema de rachadinha de Jair Bolsonaro?

Fabrício Queiroz e Jair Bolsonaro - Reprodução do instagram
Fabrício Queiroz e Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução do instagram
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

14/08/2020 04h00

Desde quando, em fins de 2018, veio à tona a investigação sobre o esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) envolvendo Flávio Bolsonaro e Fabricio Queiroz, Jair Bolsonaro acompanha tudo a uma distância segura.

No primeiro momento, disse que os indícios deveriam ser apurados com rigor para que houvesse punição dos culpados. "Doa a quem doer", bradou. O tempo passou e o presidente deixou o rigor de lado. Hoje, não vocifera mais contra os investigados, mas contra os investigadores.

Até aqui, era essa a principal acusação contra o patriarca do clã Bolsonaro nesse caso, a de tentar interferir nas investigações para proteger o filho 01.

Nos últimos dias, porém, o foco dos holofotes passou de Flávio para o próprio Jair Bolsonaro.

Graças a reportagens dos jornalistas Camila Mattoso e Ítalo Nogueira, publicadas na Folha de S. Paulo, sabe-se agora que durante um ano e oito meses a filha de Fabrício Queiroz, Nathália, que trabalhava no gabinete do então deputado Jair depositava parte do seu salário na conta do pai. É o mesmo procedimento dos envolvidos no esquema de rachadinha da Alerj.

Mais: Nathália parou de fazer os depósitos justamente na data em que Flávio Bolsonaro, segundo relato do empresário Paulo Marinho, foi informado da investigação que o Ministério Público do Rio fazia sobre o esquema. Foi então que Queiroz se desligou do gabinete de Flávio, e a moça também pediu para sair do gabinete de Jair.

A pergunta incômoda é inevitável: se o filho 01 é apontado pelo MP como beneficiário do esquema de rachadinha da Alerj, quem era o beneficiário da rachadinha no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, que rendeu R$ 150 mil?

Há uma outra questão espinhosa: dos funcionários do gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, Nathália foi a única a fazer rachadinha?

A dúvida é pertinente, ainda mais quando se sabe que Queiroz era amigo de Jair há décadas, muito antes de Flávio.

Além disso, a investigação do MP do Rio levantou informações curiosas, que apontam para o presidente e ganham nova dimensão com as revelações recentes.

Como os depósitos feitos por Queiroz e sua mulher, Márcia, na conta de Michelle Bolsonaro, num total de R$ 89 mil. Em dezembro de 2018, quando se descobriram os primeiros repasses para a primeira-dama, Jair Bolsonaro apressou-se em dizer que o dinheiro era pagamento de um empréstimo que tinha feito a Queiroz.

Ao tentar explicar por qual motivo o homem de confiança da família devolveu o dinheiro depositando na conta de Michelle e não na sua, Bolsonaro criou uma justificativa despropositada.

"Só não foi na minha conta por questão de mobilidade minha, que eu ando atarefado o tempo todo para ir em banco", alegou ele, então.

É certo que a paixão da família Bolsonaro por cédulas é incomum, como a coluna mostrou recentemente, mas mesmo seus integrantes devem saber que há tempos é possível fazer transações bancárias por meio digital. Não há nenhum problema de mobilidade que explique uma gambiarra como essa.

Ao que tudo indica, as duas perguntas feitas no meio do texto ficarão sem resposta, ao menos por agora. Afinal, apesar de o filho 01 estar encalacrado, Jair Bolsonaro não é alvo de nenhuma investigação.

O presidente, porém, deve estar menos confortável do que estava no início do ano passado. A cada nova revelação da ímprensa, a distância de Bolsonaro do escândalo que engoliu o filho 01 fica cada vez menos segura.

Com a volta de Queiroz ao xilindró, destino que também será o da mulher dele, Márcia, o risco de novas emoções aumenta consideravelmente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves