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Não é "trollagem": Bolsonaro tem muito a responder sobre rachadinha

O ex-assessor Fabrício Queiroz em confraternização com o presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) - Reprodução
O ex-assessor Fabrício Queiroz em confraternização com o presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) Imagem: Reprodução
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

24/08/2020 10h00

A pergunta que milhares de brasileiros estão fazendo ao presidente Jair Bolsonaro ("por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?") e que ontem foi formulada pessoalmente pelo jornalista Daniel Gulino, do jornal O Globo, precisa urgentemente de uma resposta. Não é mera "trollagem" (trote de internet), mas assunto sério que a Justiça deve tratar com rigor.

Por muitos meses, apenas Flávio Bolsonaro teve que responder sobre o envolvimento no esquema de rachadinha. O presidente foi poupado de dar explicações convincentes sobre sua própria participação e a da primeira-dama no furdunço. É hora de reforçar essa cobrança, há muitas questões sem resposta.

Já se sabe que durante um ano e oito meses a filha de Fabrício Queiroz, Nathália, que em 2017 e 2018 trabalhou no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, depositava parte do seu salário na conta do pai. O procedimento é idêntico ao dos envolvidos no esquema de rachadinha da Assembleia Legislativa do Rio.

Tal como aconteceu com Queiroz, Nathália parou de fazer os depósitos somente quando Flávio Bolsonaro, segundo relato do empresário Paulo Marinho, foi informado que o Ministério Público do Rio fazia investigação sobre o esquema.

Se Flávio teria sido beneficiário do esquema que se desenrorolava em seu gabinete, quando era deputado estadual, quem era o beneficiário da rachadinha que era feita no gabinete de Jair, quando deputado federal?

Nathália foi a única funcionária do atual presidente a fazer rachadinha?

Quando, em 2018, foram descobertos os primeiros repasses de Queiroz para Michelle Bolsonaro, no valor de R$ 24 mil, o presidente disse que o dinheiro era pagamento de empréstimo feito ao amigo e ex-assessor do filho.

Mas por que o pagamento a Bolsonaro foi feito na conta da primeira-dama?

"Só não foi na minha conta por questão de mobilidade minha, que eu ando atarefado o tempo todo para ir em banco", foi a explicação sem pé nem cabeça que o presidente deu na época.

Não é verossímil que um deputado federal tenha que gastar tempo para ir a agências bancárias e caixas eletrônicos numa época em que qualquer um paga e recebe contas por meio digital, com um simples celular. A explicação de Bolsonaro simplesmente não faz sentido.

Além disso, segundo apurou o Ministério Público, não há registro na movimentação financeira de Queiroz que ele tenha recebido o tal empréstimo.

O que dizer agora, quando o montante depositado na conta da primeira-dama por Queiroz e sua mulher chega a R$ 89 mil?

A ameaça de Bolsonaro feita ao repórter do Globo serviu para, além de confirmar que não existe na realidade o "Jair paz e amor", lembrar ao Brasil que não é só Flávio que deve responder sobre o esquema de rachadinha. O presidente também tem muitas respostas a dar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.