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O impressionante encantamento da família Bolsonaro por dinheiro vivo

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

23/09/2020 15h27

Se dependesse do presidente Jair Bolsonaro e família, o sistema bancário nacional estaria mal das pernas. É impressionante como em várias áreas o clã prefere fazer transações em dinheiro vivo a usar as transferências de banco para banco, como todo mundo faz.

Já se sabia dos pagamentos em espécie na compra de imóveis, dos boletos de valores altíssimos pagos na boca do caixa e também dos depósitos em dinheiro feitos na conta da primeira-dama. Agora temos uma novidade.

Reportagem dos jornalistas Ana Luiza Albuquerque, Ítalo Nogueira e Felipe Bachtold publicada hoje na Folha de S. Paulo e no UOL mostra que, entre 2008 e 2014, Jair Bolsonaro e seus filhos fizeram doações para as próprias campanhas políticas no valor de R$ 100 mil reais em espécie . Corrigido, esse valor chega a R$ 163 mil reais.

Ninguém é proibido de fazer transações em moeda corrente, mas o alto valor dessa movimentação é que chama atenção.

Pelo menos no caso do senador Flávio Bolsonaro, investigado pelo Ministério Público do Rio no inquérito da chamada rachadinha, os promotores acham que essa prática pode ser indício de lavagem de dinheiro.

Mas os outros integrantes da família têm muito a explicar. O Estadão publicou hoje matéria dos jornalistas Caio Sartori e Wilson Tosta revelando que Carlos Bolsonaro, o filho zero dois, comprou em 2003 um imóvel por 150 mil reais com dinheiro vivo. Na época, ele tinha somente vinte anos.

Também hoje, O Globo publica matéria de Juliana Dal Piva e Chico Otávio com a informação que, em 2011 e 2016, Eduardo Bolsonaro pagou um total de R$ 150 mil cash como parte da aquisição de dois imóveis.

Antes, reportagens do jornal mostraram que a mãe de Carlos, a ex-mulher de Jair Bolsonaro, Rogéria, também comprou imóvel em dinheiro, no ano de 1996. Outra ex-mulher do presidente, Ana Cristina, comprou 14 imóveis com grana viva, no valor corrigido de 3 milhões de reais.

Essa fixação por cédulas continuou no casamento atual de Bolsonaro. Como se sabe, Fabrício Queiroz e sua mulher, Márcia, depositaram em espécie na conta da primeira-dama, Michelle, pelo menos R$ 89 mil. Na primeira vez que se soube que Queiroz tinha injetado dinheiro na conta de Michelle, Bolsonaro disse que aquele era um pagamento de um empréstimo de 40 mil reais que o presidente tinha feito a Queiroz.

Já é difícil entender porque o pagamento ao marido deveria ser feito na conta da mulher. Agora ficou mais complicado, pois se descobriu que o valor depositado é mais que o dobro dos 40 mil que Bolsonaro diz ter emprestado a Queiroz.

A preferência da família presidencial pelo dinheiro vivo deixa muitas perguntas sem resposta. Mas uma questão que talvez seja a mais urgente a ser respondida é: por que Queiroz depositou 89 mil na conta de Michelle Bolsonaro? Deixar a pergunta no ar não é boa estratégia. A cada vez que a imprensa publicar revelações como as de hoje, o presidente dá República voltará ser lembrado de que está devendo explicações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.